Número de leitos de UTI ainda é insuficiente no Brasil

3 de setembro de 2020 5 mins. de leitura
Problemas de distribuição permanecem, aumentando a desigualdade no tratamento intensivo de outras doenças

Em quase oito meses da pandemia do novo coronavírus, o mundo está perto de passar a marca de 22 milhões de infectados e 800 mil mortos. Só no Brasil, até o período de 20 de agosto, cerca 3,5 milhões de pessoas contraíram a covid-19, contabilizando mais de 112 mil óbitos. Os casos mais graves necessitam de internamento em terapia intensiva, e devido a isso a pandemia mostrou que esse cenário ainda é bastante desigual no Brasil.

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No começo do ano, o País contava com 46 mil Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Elas eram distribuídas quase igualitariamente entre a rede particular e o Sistema Único de Saúde (SUS). Desde então, cerca de 20 mil novos leitos foram abertos para atender à alta demanda de pacientes com covid-19.

Entretanto, esses leitos foram feitos para dedicação exclusiva da doença. Com isso, outras enfermidades ainda contam com a mesma quantidade de UTIs do começo de 2020, expondo a desigualdade nos sistemas de saúde.

“Necessitamos de políticas públicas que facilitem o acesso dos pacientes às unidades de terapia intensiva. As estratégias para enfrentar a covid-19 mostraram que é possível ampliar a oferta dos serviços”, analisa Mauro Ribeiro, presidente do Conselho Federal de Medicina, em artigo publicado no site da entidade.

Inauguração de 20 leitos de UTI em hospital de campanha de Salvador (Fonte: Fotospublicas.com)
Inauguração de leitos de UTI em hospital de campanha de Salvador. (Fonte: Fotospublicas.com)

Recomendações internacionais

“Todo mundo está perplexo com a falta de leitos de UTI, estarrecido com a falta de respiradores. A polêmica do último leito e de quem usará o único respirador que tem é antiga. Isso nós vivemos há muito tempo”, alertou o médico Elias Knobel, do Hospital Israelita Albert Einstein, em entrevista realizada à Associação de Medicina Intensiva Brasileira, em maio.

Por conta da idade, 76 anos, Knobel não atuou na linha de frente do combate à pandemia, mas acompanhou os preparativos do hospital. “Já passei situações difíceis e semelhantes na minha carreira, como na época em que apareceu a Aids, com a epidemia de meningite em 1974 e o H1N1 mais recentemente”, explicou o veterano. Ainda assim, ele ressalta que a atual crise pegou os especialistas relativamente de surpresa, principalmente pela demora da Organização Mundial da Saúde (OMS) em declarar estado de pandemia.

Em março, a especialista em doenças respiratórias Mei Fong Liew, de Cingapura, publicou um artigo no BioMedCenter (BMC) detalhando procedimentos que o resto do mundo poderia implementar nas UTIs, com base no que estava sendo vivenciado por lá. Além do aumento do número de leitos, seria necessário preparar a equipe e ampliar a proteção individual – na epidemia de H1N1, em 2009, cerca de 20% dos infectados trabalhavam na saúde.

Quantidade mínima

Atualmente, o Brasil conta com 66,7 mil leitos de UTI (públicos ou privados). Isso representa 45% a mais do que no começo do ano. Porém, pelos novos leitos serem exclusivos ao tratamento da covid-19, a defasagem no tratamento das outras doenças continua existindo.

“Com frequência testemunhamos hospitais com alas vermelhas superlotadas, repletas de pacientes improvisadamente entubados e à espera de infraestrutura apropriada para cuidados intensivos”, salientou Ribeiro. Muitos dos novos leitos são temporários ou em hospitais de campanha, que podem ser desativados com a diminuição do número de pacientes.

A OMS orientava, antes da pandemia, que a oferta de leitos de UTI deveria ser de 10 a 30 para cada 100 mil habitantes. Essa orientação era seguida pela portaria nº 1.101, de 2002, do Ministério da Saúde, mas a especificação caiu quando a portaria foi substituída pela nº 1.631, de 2015.

Hospital de campanha inaugurado no Pará. (Fonte: Fotospublicas.com)Hospital de campanha inaugurado no Pará. (Fonte: Fotospublicas.com)

Cidades sem UTI

A realidade nacional, porém, é bastante diferente. Ao menos 14 estados brasileiros, principalmente do Norte e do Nordeste, não atingem a recomendação mínima da OMS. 

Outro problema é que a distribuição das unidades é irregular entre os sistemas públicos e particulares de saúde. Na média geral do País, existem 11 leitos para 100 mil habitantes no SUS, mas, na rede particular, esse número sobe para 50 a cada 100 mil beneficiários de planos de saúde. Atualmente, apenas 22% da população brasileira possui algum plano.

O Sudeste concentra a maior quantidade de leitos: 24.621 das UTIs nacionais do SUS (52% do total). Já o Norte é o que tem apenas 5% deles, com 2.489, apresentando casos graves como o do Amapá e de Roraima, que, juntos, possuem apenas 72 UTIs. Outro dado preocupante é que 90,2% das 5.570 cidades brasileiras não possuem nenhum leito sequer, com pacientes sendo encaminhados a capitais ou a municípios maiores.

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Fontes: Conselho Federal de Medicina, Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Instituto Butantan.

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