Um estudo chinês associou o agravamento da covid-19 à bactéria Prevotella, mas essa conclusão pode ser precipitada

Desde que a covid-19 se espalhou pelo mundo, nos primeiros meses de 2020, há muitos debates sobre possíveis curas e causas para a doença. E vários animais foram apontados como potenciais transmissores do novo coronavírus para os humanos.

Agora, estudos apontam que uma bactéria intestinal, conhecida como Prevotella, possa estar relacionada aos sintomas graves do novo coronavírus. Embora não tenha ganhado destaque no Brasil, a ideia está sendo muito compartilhada em correntes de mensagens na França. Por lá, a teoria já foi avaliada como “uma conclusão precipitada” por cientistas e classificada como fake news.

De acordo com a corrente, a culpa das mortes pelo Sars-CoV-2 não seria dele próprio, mas sim da Prevotella, que se tornaria “virulenta”, causando hiper-reação do sistema imunológico e enfraquecendo os pulmões, o que causaria os óbitos.

Além disso, a mensagem afirma que a interação entre o Sars-Cov-2 e a Prevotella seria a razão pela qual o tratamento com azitromicina seria tão eficaz em pacientes graves de covid-19.

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(Fonte: Fusion Medical Animation/Unsplash)

Fake news têm origem em estudo chinês

Essa fake news da França teria sido originada após a divulgação de um estudo chinês, compartilhado no fim de janeiro pela plataforma de publicações científicas bioRxiv, que divulga trabalhos que ainda não foram revisados por comitês científicos e podem ter diversos erros, inclusive de métodos e análises. De acordo com fontes ouvidas pelo canal de notícias francês LCI, especialistas apontam que o estudo foi feito com apenas três pacientes e sem grupo de controle. E isso seria insuficiente para gerar conclusões.

Além disso, os próprios cientistas chineses não fazem afirmações categóricas sobre a Prevotella em qualquer ponto do artigo. A definição do estudo, de maneira geral, é de que o sistema digestório pode ser outra rota para o novo coronavírus atacar, além dos pulmões. O que eles afirmam é haver uma taxa maior do microrganismo em pessoas com covid-19.

Considerando os problemas da própria publicação, qualquer conclusão feita sobre ela seria precipitada. “[O estudo] é muito insuficiente para concluir que a Prevotella está mais presente em pacientes com coronavírus. Na realidade, não sabemos”, afirmou Harry Sokol, professor de Gastroenterologia e Nutrição do Hospital Saint-Antoine, em Paris, à revista Sciences et Avenir.

Prevotella é comum em pessoas saudáveis

Mesmo que uma possível correlação entre as taxas de Prevotella e os sintomas de covid-19 pudesse ser estabelecida, o vírus continuaria sem infectar a bactéria, como é alardeado pela corrente de fake news. Afinal, esses microrganismos têm material genético composto por DNA, e o Sars-CoV-2 é um vírus de RNA. “Os vírus não transferem seu genoma para as bactérias. Se fosse esse o caso, seria a primeira vez no mundo”, declarou Joël Doré, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inrae, na sigla em francês).

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A fake news também afirma que a infecção por Prevotella explicaria por que crianças são pouco atingidas pelo novo coronavírus e idosos são tão afetados, já que não estaria nas floras dos pequenos, sendo mais comum conforme a idade passa. Outra ideia sem fundamento científico. “[A bactéria] não está presente nos primeiros dias de vida, mas se desenvolve nos primeiros seis meses”, explicou Doré.

Por mais que seja verdade que as crianças estão sendo menos afetadas pelo Sars-CoV-2, essa não é a explicação. Na verdade, a presença de Prevotella indica uma flora intestinal saudável, de acordo com Doré: “Essa bactéria é uma hospedeira normal do intestino humano” e altos níveis dela são encontrados em 20% a 25% das populações, associados a uma dieta rica em fibras.

Outras conexões entre a microbiota e o Sars-CoV-2

Apenas um pesquisador indiano, Sandeep Chakraborty, defendeu a tese que liga a Prevotella às infecções pelo novo coronavírus. Mas, assim como o estudo chinês, os artigos dele permanecem apenas em plataformas de pré-publicação e não receberam apoio da comunidade científica.

Isso não quer dizer que tenha sido descartada a possibilidade de que o sistema digestório seja um caminho para o novo coronavírus. Afinal, como explica Sokol, “os sintomas digestivos aparecem em 5% a 20% das pessoas, principalmente com diarreia, mas também náusea e vômito”. Dessa maneira, ele levanta a hipótese de que pacientes com sinais digestivos podem ter uma forma mais grave da doença, algo que ainda precisa ser comprovado pelos estudos.

Uma associação que pode ser feita entre a microbiota e o novo coronavírus é que uma flora intestinal saudável auxilia o sistema imunológico a lutar contra qualquer patógeno, sendo o Sars-CoV-2 ou não.

Segundo artigo publicado pelo professor Tim Spector, da King’s College de Londres, estudos recentes demonstraram que a microbiota intestinal tem papel essencial na resposta imunológica do corpo a infecções e em manter a saúde de maneira geral. Sendo assim, ele recomenda uma dieta rica em fibras, iogurtes naturais e outros alimentos probióticos.

Fonte: LCI, bioRvix.org, The Conversation, Sciences et Avenir