Dispositivo desenvolvido para monitoramento de crianças com câncer pode alertar sobre alterações de temperatura que podem indicar infecções

Uma startup doou cem curativos inteligentes para o Grupo de Assistência de Criança com Câncer (GACC) de São José dos Campos (SP) para o monitoramento de pacientes oncológicos a serem utilizados a partir de julho. O dispositivo wearable se assemelha a um band-aid e é colado na pele para acompanhar em tempo real a temperatura e os batimentos cardíacos do paciente. A tecnologia emite um alerta aos pais e profissionais da saúde caso haja alterações.

A startup Luckie tem como objetivo principal evitar que crianças morram de doenças que se aproveitam da baixa imunidade causada pelo tratamento de câncer, como a infecção causada pelo novo coronavírus. A tecnologia também pode ser utilizada por outras pessoas que estão nos grupos de risco da covid-19.

Segundo a empresa, todos os anos, 12 mil crianças são diagnosticadas com câncer no Brasil. Nos Estados Unidos, esse número alcança 50 mil novos casos anualmente. Em todo o mundo, por ano, 360 mil crianças são diagnosticadas com a doença.

A ideia surgiu após o fundador da empresa e engenheiro mecânico Joel de Oliveira Júnior perder o filho de 2 anos e meio de idade durante um tratamento de neoplasia. O nome da empresa faz referência à palavra sortudo, em inglês, mas também ao nome de seu filho, Lucas.

Depois da experiência pessoal, o engenheiro resolveu dedicar o seu tempo para que outros pais não passem pela mesma situação. Foi então que começou um serviço voluntário para ajudar pacientes no mesmo hospital onde o filho foi tratado, o Grupo de Assistência à Criança com Câncer (GACC).

Para o desenvolvimento da tecnologia, o engenheiro conta com a sociedade do cirurgião Wagner Marcondes, do Hospital Israelita Albert Einstein e da Rede D'Or, e do administrador William Sousa, presidente do grupo Kainos de inteligência artificial. A startup ainda tem o apoio de algumas empresas, como Murata, Embraer, Volvo, Certisign e Philips.

Internet das Coisas, Big Data e inteligência artificial

O dispositivo, composto por sensor, bateria e antena, utiliza o conceito de Internet das Coisas (IoT), com a interconexão digital de objetivos do cotidiano com a web sem a necessidade de comandos humanos. A IoT é uma rede de objetos físicos, como veículos e edifícios, com tecnologia embarcada capaz de reunir e transmitir dados.

Esse mecanismo é fundamental para o funcionamento do curativo desenvolvido pela Luckie, já que a alteração de temperatura, tanto de febre quanto de hipotermia, é um dos primeiros sinais de infecção no organismo.

(Fonte: Shutterstock)

Sem o dispositivo, os pais tinham de verificar a temperatura da criança em tratamento de três em três horas, inclusive durante a noite. Essa observação é fundamental, pois a morte de pessoas em tratamento de câncer acontece muitas vezes por fatores causados pela baixa imunidade, como uma gripe, e não pela neoplasia em si. Assim, verificar possíveis infecções com antecedência pode salvar a vida do paciente.

O dispositivo faz uma leitura preventiva por meio de inteligência artificial para verificar problemas nos sinais vitais. Caso note alguma alteração, o aparelho dispara um alerta para aplicativos no celular dos pais e da equipe médica. Após receber os avisos, os médicos podem indicar um tratamento, mesmo a distância.

Todas as informações são enviadas para armazenamento em nuvem. E esse conjunto de dados, Big Data de informações das crianças com câncer, pode ser acessado por profissionais da saúde para a realização de pesquisas com o objetivo de diminuir a mortalidade no tratamento.

Coronavírus

(Fonte: Shutterstock)

“Se serve para crianças com câncer, serve também para ajudar a salvar vidas em outras doenças, principalmente nessa pandemia da covid-19”, destacou o inventor do dispositivo ao Broadcast Político do Estadão.

A tecnologia pode ser uma ajuda providencial em meio a um número crescente de infecções pelo novo coronavírus e a dificuldade da realização de testes para identificar as pessoas com a doença. A Luckie decidiu melhorar o curativo inteligente para parâmetros que ajudem a salvar pessoas da pandemia de covid-19; além de monitorar a temperatura corporal, a tecnologia pode ser adaptada para medir o grau de oxigenação, uma vez que a infecção pelo novo coronavírus provoca danos nas vias respiratórias.

A startup garante que o dispositivo está pronto para ser usado. A ideia de Oliveira Júnior é monitorar inicialmente grupo de riscos em locais vulneráveis, como favelas, por isso a empresa está dialogando com comunidades, empresários e gestores públicos para implementar a ideia. A tecnologia pode ser utilizada, ainda, para ajudar no encaminhamento de pessoas às unidades de saúde mais próximas.

O produto ainda deve ser aprovado e registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que possa ser utilizado em larga escala.

Fonte: Startse, Estadão.