Desrespeito a profissionais de saúde tem sido crescente

30 de julho de 2020 5 mins. de leitura
situações de agressões a médicos e enfermeiros foram agravadas com a pandemia da covid-19, resultando em sequelas físicas e psicológicas

Profissionais da saúde enfrentam diversos desafios em suas rotinas, mas um problema que já não era inédito na área está ganhando proporções assustadoras com a pandemia da covid-19: a violência e a hostilidade dos pacientes — desrespeito que pode causar sequelas físicas e psicológicas difíceis de superar.

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Em agosto de 2019, um estudo encomendado pelos conselhos regionais das categorias entrevistou 6.832 profissionais (4.107 enfermeiros, 1.640 médicos e 1.085 farmacêuticos) e revelou que 71,6% deles já sofreram agressão física ou verbal em ambiente de trabalho.

No mesmo ano, uma pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) com 20 mil trabalhadores de saúde de países latino-americanos mostrou que 66,7% dos entrevistados enfrentaram situações semelhantes em 2015, um aumento considerável em relação ao último levantamento (2006), cujo índice de agressão era de 54,6%.

Exemplos recentes não são difíceis de serem encontrados, o que mostra que, infelizmente, apesar de homenagens viralizarem nas redes sociais, estamos longe de atingir as condições ideais para uma atuação eficaz daqueles que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

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Desrespeito a profissionais de saúde não é novidade, mas está sendo acentuado durante a pandemia. (Fonte: Unsplash)

Casos de agressão no Brasil

Em 8 de abril, na cidade de Curitiba (PR), um paciente com suspeita de covid-19 que aguardava em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) atacou dois médicos. Ele teria, depois de arrancar o acesso venoso, dado um soco em um dos profissionais que tentou contê-lo, além de cuspir e espirrar sangue na equipe, que usava apenas de máscara como proteção. De acordo com o Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (Simepar), a motivação do agressor foi a recusa para ser internado.

A situação causou medo nas vítimas, já que havia risco de contaminação. O grupo registrou o caso em ata e enviou o documento à Secretaria de Saúde e à Fundação Estatal de Atenção Especializada (FEAS), administradoras da instituição, pedindo mais equipamentos de proteção.

Outra notícia que tomou conta das manchetes foi a agressão a uma médica em Grajaú (RJ). Em 30 de maio, Ticyana D’Azambujja tentou interromper um evento chamado Festa da Covid e foi brutalmente agredida depois de danificar o carro de um dos presentes. Ela considera que cometeu um ato de imaturidade, mas não imaginava que, em vez de conversarem com ela, os convidados partiriam para sessões de espancamento que resultaram em um joelho quebrado e mãos pisoteadas.

A Polícia Civil concluiu o inquérito e indiciou 14 pessoas, que vão responder por infração sanitária preventiva por participarem de uma aglomeração no meio de uma pandemia. A pena pode chegar a um ano de prisão. Ticyana, correndo o risco de perder o movimento do joelho, declarou recentemente estar pensando em mudar de bairro, por sentir muito medo.

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Agressões a médicos e enfermeiros têm diversas motivações. (Fonte: Unsplash)

Em 11 de junho, em Goiânia (GO), um casal foi levado para uma delegacia pela suspeita de agredir um médico que trabalhava no Centro de Atendimento Integral à Saúde (Cais). Segundo relatos, enquanto o profissional entubava um paciente, a mulher invadiu o consultório exigindo atendimento e empurrou o servidor.

Também em junho, o infectologista Lucas Agra relatou ataques sofridos por familiares de pacientes internados com covid-19 em Ribeirão Preto (SP), afirmando que muitas pessoas não acreditam na doença e que o comportamento delas acaba exercendo pressão sobre a atividade dos profissionais de saúde. Ele foi contaminado.

Sequelas físicas e psicológicas

Ainda de acordo com o estudo realizado em São Paulo, as principais vítimas de agressões são mulheres: 84% em enfermagem, 57% em medicina e 77% em farmácia. Os mais jovens, com até 40 anos de idade, não escapam dessa realidade por estarem, geralmente, na linha de frente do atendimento, respondendo por 76% dos casos (63% em medicina e 84% em farmácia). Tais condições de trabalho impactam diretamente o aumento de burnout ocupacional e fadiga devido ao estresse.

Dr. Farzan Sasangohar, professor assistente do Hospital Metodista de Houston, desenvolveu uma pesquisa durante a pandemia e mostra que turnos mais longos, perdas constantes de vidas, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) e treinamento inadequado para o uso da aparelhagem tornam profissionais da saúde mais vulneráveis a todo tipo de questionamento e, é claro, ao medo devido à insegurança quanto à exposição à doença e ao receio de contaminação de familiares, além da interrupção de procedimentos eletivos e demissões.

Resultado de um processo prolongado de tentativas para lidar com determinadas condições de estresse, a síndrome de burnout é caracterizada pelo esgotamento emocional e pela escassa realização pessoal. Os sintomas físicos, que vão desde dores de cabeça a distúrbios gastrointestinais, elevam ausências no trabalho, agressividade, isolamento e mudanças bruscas de humor, além de irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo e baixa autoestima.

Nesse cenário, a Dra. Bita Kash, da mesma instituição, afirma que “minimizar riscos ocupacionais é a ação mais importante para assegurar que profissionais de saúde estejam totalmente preparados e seguros para enfrentar o coronavírus”. Por isso, é preciso adotar medidas multidisciplinares para combater mais esse problema, já que quanto mais saudáveis estiverem os médicos, melhor eles poderão atender aos pacientes.

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Fontes: Agência Brasil, PEBMED, Estadão, ScienceDaily.

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