Liberação de compra de vacinas deve piorar desigualdade no Brasil

2 de maio de 2021 4 mins. de leitura
Empresas e consórcios de municípios deverão concentrar imunização no Sul e Sudeste, ampliando desigualdade no País

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O Ministério da Saúde teve dificuldades de elaborar e colocar em prática o Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a covid-19. Enquanto menos de 10% da população receberam pelo menos uma dose no Brasil, no Chile esse número chega a 37,5% e, no Uruguai, a 21,7%.

Essa lentidão na imunização tem gerado iniciativas de parlamentares, empresas, prefeitos e governadores para a compra da vacina de forma direta. Estão sendo organizados consórcios entre municípios e governos estaduais e a Câmara de Deputados aprovou um projeto autorizando empresas privadas a adquirem doses.

Desigualdade no Brasil

Vacinas compradas por municípios e empresas podem aprofundar a desigualdade no acesso ao imunizante. (Fonte: Shutterstock/Delmiro Junior/Reprodução)
Vacinas compradas por municípios e empresas podem aprofundar a desigualdade no acesso ao imunizante. (Fonte: Shutterstock/Delmiro Junior/Reprodução)

A falta de coordenação nacional na distribuição dos imunizantes pode provocar o aumento das desigualdades sociais entre as diversas regiões do País. Um estudo realizado pelo Departamento de Economia da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo aponta que a vacinação poderá ficar concentrada nos municípios mais ricos.

A avaliação foi feita com base na criação do Consórcio Nacional de Vacinas das Cidades Brasileiras (Conectar), lançado pela Frente Nacional de Prefeitos, e conta com o interesse de 2,5 mil municípios. A pesquisa aponta que o consórcio atinge apenas 44% dos municípios, concentrados na região Sul e Sudeste, o que deve gerar uma disparidade no acesso à proteção contra covid-19.

Os pesquisadores alertam que isso pode levar à criação de novas variantes nos municípios que ficarem sem acesso aos imunizantes, aumentando o risco de baixa efetividade das vacinas aplicadas anteriormente.

Compra e distribuição de vacina

Aplicativo do SUS fornece informações sobre vacinação. (Fonte: Shutterstock/rafapress/Reprodução)

Grandes entraves foram superados dentro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como a compra, a liberação de importação de doses e insumos e a validação de lotes do imunizante. Apesar disso, alguns empecilhos ainda precisam ser superados.

Até o momento, o Instituto Butantã, com a Coronavac, responde por 85% das vacinas aplicadas no País, e já foram entregues 46 milhões de doses ao PNI. A unidade de Bio-Manguinhos da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) entregou 8,1 milhões de doses, mas recentemente conseguiu triplicar a sua produção diária, saindo de 300 mil doses em março para 900 mil em abril.

Entretanto, o aumento da variedade de vacinas disponíveis contra o coronavírus enfrenta entraves burocráticos na Anvisa, como é o caso da liberação da vacina Sputnik V. O governo da Bahia acertou a compra de 9,7 milhões de doses e espera autorização do órgão sanitário para importar e aplicar o imunizante.

Independência industrial perdida

Até a abertura da economia brasileira ao mundo, realizada no início da década de 1990, o País produzia 55% dos insumos farmacêuticos de que precisava, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi). A abertura comercial possibilitou a importação de produtos mais baratos, o que tornou inviável financeiramente a produção nacional.

Atualmente, o Brasil produz apenas 5% dos insumos de que precisa. Enquanto isso, China e Índia despontam no cenário mundial e fornecem 74% do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) para a fabricação da Coronavac e da Oxford/AstraZeneca, únicos imunizantes que estão sendo aplicados no PNI. Os brasileiros ainda dependem de materiais vindos da Alemanha, da Itália, dos Estados Unidos e da Suíça.

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Fonte: Medicina SA, Oxfam, Estadão, Agência Brasil, Our Worild in Data, Governo da Bahia.

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