Pesquisa inédita do Ministério da Justiça e Segurança Pública acende mais um alerta sobre o tema; jogos podem causar dependência, tolerância e até abstinência Por Paula Ferreira – editada por Mariana Collini em 28/03/2025 Dados inéditos do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), obtidos com exclusividade pelo Estadão, evidenciam o perigo dos jogos de […]
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Pesquisa inédita do Ministério da Justiça e Segurança Pública acende mais um alerta sobre o tema; jogos podem causar dependência, tolerância e até abstinência
Por Paula Ferreira – editada por Mariana Collini em 28/03/2025
Dados inéditos do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), obtidos com exclusividade pelo Estadão, evidenciam o perigo dos jogos de aposta. De acordo com a pasta, mais de um terço (38,6%) dos apostadores enfrenta algum grau de risco ou transtorno relacionado ao vício em jogo.
A pesquisa indica ainda que os adolescentes são o grupo mais vulnerável: 55,2% dos apostadores na faixa etária entre 14 e 17 anos estão na zona de risco. Com a inserção das apostas online, as chamadas bets, o cenário ficou ainda mais preocupante.
“Embora não envolva o uso de substâncias químicas, como álcool e outras drogas, o comportamento de jogar e apostar pode compartilhar características comuns com os transtornos por uso de substâncias, como perda de controle, tolerância e abstinência”, explica Bárbara Caballero, diretora de Pesquisa, Avaliação e Gestão de Informações da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) do MJSP ao Estadão.
Os dados estão no Levantamento de Álcool e Drogas (Lenad), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) a pedido da Senad. Pela primeira vez, a pesquisa reúne dados sobre o vício em cigarros eletrônicos, em jogos de apostas (incluindo as chamadas bets) e o uso de medicamentos sem prescrição médica.
Nesta quarta-feira, 26, o Ministério da Justiça e Segurança Pública lança o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid). O organismo será responsável por reunir informações sobre drogas para embasar políticas públicas na área. O vício em jogos entrou no radar da pasta por apresentar características semelhantes ao que ocorre com a dependência química.
A pesquisa levou em consideração uma amostra de 16 mil pessoas com 14 anos ou mais, classificadas como adolescentes (14 a 17 anos) e adultos (18 ou mais).
Considerando o último ano, 10,5% dos adolescentes dizem que apostaram. O porcentual é de 18,1% entre os adultos. A região do país com maior atividade de apostadores no último ano foi a Sul, seguida do Centro-Oeste, do Sudeste, do Norte e do Nordeste.
Expansão das bets
A pesquisa do MJSP mostra a expansão das apostas online. As bets ocupam a segunda posição na lista de lugares onde os jogadores fazem apostas, perdendo apenas para loteria.
De acordo com os dados, 32,1% dos apostadores jogam nas bets, superando inclusive o jogo do bicho (28,9%).
“Isso nos mostra que a questão das bets vai muito além de uma política de regulamentação de sites de apostas sob o aspecto financeiro, mas envolve também um olhar para a saúde mental”, afirma Caballero. “Exige uma articulação intersetorial com diversos atores, incluindo políticas de saúde de redução de riscos e danos, similar ao que é trabalhado nas políticas sobre drogas.”
Em 2023, foi sancionada a lei que regulamenta as bets no país. Em dezembro de 2024, o governo federal divulgou a lista de bets autorizadas a funcionar no Brasil.
A legalização das apostas esportivas acendeu alerta entre especialistas em relação à dependência nessas plataformas, que vem causando endividamento de brasileiros. “Se a bet fosse uma droga, eu diria que é o crack. Seu poder aditivo é maior que o da cocaína, por exemplo”, comparou a psicóloga Juliana Bizeto em reportagem do Estadão. A especialista é autora do capítulo dedicado a Jogo Patológico do livro Dependências Não Químicas e Compulsões Modernas (Editora Atheneu, 2016).
Como o Estadão também mostrou, adolescentes têm até recorrido a empréstimos com agiotas para arcar com os prejuízos das apostas.
Um relatório de uma comissão de especialistas reunidos pela revista científica The Lancet Public Health, publicado em novembro do ano passado, apontou que 448,7 milhões de adultos em todo o mundo vivem algum risco de jogo.
Foto: Seventyfour/Adobe Stock