Pesquisadores ligam obesidade ao câncer de fígado

7 de abril de 2020 5 mins. de leitura
Uma proteína específica é responsável pelo desenvolvimento de doenças hepáticas relacionadas à obesidade

O carcinoma hepatocelular, um câncer de fígado muito comum ligado à presença de gordura no fígado, representa cerca de 5% de todos os casos de neoplasia do mundo e é uma das principais causas de morte pela doença.

O tumor leva à morte rapidamente após o início dos sintomas, sendo a terceira maior causa de morte por câncer no mundo. A dificuldade em detectá-lo e a falta de tratamento direcionado são aspectos que tornam essa doença ainda mais preocupante, pois causa a morte de mais de 700 mil pessoas por ano em todo o mundo.

Os principais fatores de risco para a patologia são as infecções pelos vírus das hepatites B e C, bem como a cirrose relacionada ao consumo exagerado de álcool. Esse carcinoma pode ocorrer ainda no contexto de uma inflamação crônica do fígado causada pelo acúmulo excessivo de gordura. A obesidade é, portanto, também um importante fator de risco para o desenvolvimento desse câncer.

(Fonte: Shutterstock)

Com o aumento do nosso estilo de vida sedentário e do teor de açúcar e gordura da nossa dieta, o número de indivíduos em risco vem crescendo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo e estima que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estarão com sobrepeso e mais de 700 milhões, obesos.

Cientistas da Universidade de Genebra (Inige) descobriram uma proteína envolvida na progressão de um “fígado gordo” em direção ao câncer. Essa proteína, S100A11, poderia não apenas permitir a detecção precoce do risco de desenvolver carcinoma hepatocelular, mas também abrir caminho para novas terapias direcionadas. Esses resultados, publicados na revista Gut, destacam os vínculos estreitos entre nossa dieta e o desenvolvimento da patologia.

Como a gordura pode provocar o câncer de fígado

À esquerda, células de fígado saudável. À direita, células de um fígado gorduroso. (Fonte: UNIGE/Reprodução)

Entre os maiores órgãos do corpo, o fígado desempenha funções essenciais e está envolvido no armazenamento de açúcares e gordura dos alimentos. Se a dieta for muito calórica, as células do fígado acumulam o excesso de energia sob a forma de gordura — uma condição patológica chamada doença hepática gordurosa. A inflamação e o acúmulo de tecido fibroso podem então se desenvolver e até levar à cirrose ou carcinogênese. Essas disfunções, inicialmente assintomáticas, geralmente passam despercebidas ou são consideradas benignas.

Michelangelo Foti, professor e diretor do Departamento de Fisiologia Celular e Metabolismo da Faculdade de Medicina da Unige, orientou a pesquisa e alerta sobre a gravidade das patologias hepáticas. “A doença hepática gordurosa já afeta quase 30% da população mundial e rapidamente se tornará um grande problema de saúde pública”, explica. Foti afirma que “já sabemos que um fígado gordo pode inflamar e progredir para o câncer, mas muito pouco se sabe sobre os mecanismos moleculares responsáveis por essas patologias”.

Uma rede de proteínas envolvida

O objetivo dos pesquisadores da Unigeera detectar mudanças na expressão de proteínas específicas que pudessem promover o desenvolvimento da neoplasia. “Até o momento, os estudos se concentraram principalmente em mutações genéticas associadas ao câncer de fígado, mas isso não levou a tratamentos eficazes”, acrescenta Michelangelo Foti. “É por isso que estamos procurando outras alterações que possam explicar a progressão de um fígado gorduroso em direção a um estado inflamatório e câncer”.

Acontece que toda uma rede de proteínas se desregula, na ausência de alterações genéticas, criando um ambiente propício ao desenvolvimento da carcinogênese. Nessa rede, a proteína S100A11 chamou particularmente a atenção dos cientistas. “Primeiro descobrimos que a S100A11 promove a inflamação e o acúmulo de tecido fibroso no fígado”, explica Cyril Sobolewski, pesquisador do Departamento de Fisiologia Celular e Metabolismo da Faculdade de Medicina da Unige e autor principal do trabalho. “Testes adicionais mostraram que quanto mais S100A11 foi expressa, maior a gravidade do câncer”, completa.

Imunoterapia pode ser utilizada para cura

Por ser uma doença silenciosa, assim como seus fatores de risco, o diagnóstico do carcinoma hepatocelular é tardio e, em muitos casos, o tratamento apresenta resultados limitados. Como a doença é agressiva e as opções de tratamento disponíveis para as fases mais avançadas não possibilitam a cura, a prevenção e o diagnóstico precoce se tornam essenciais.

Os discretos sintomas de inflamação do fígado e câncer desempenham um papel importante em sua periculosidade, mas a presença de S100A11 no sangue aumenta a possibilidade de uma detecção precoce por simples amostragem de sangue. “Quanto mais cedo o paciente é tratado, maiores são as chances de sobrevivência”, diz Michelangelo Foti.

“Além disso, a S100A11 pode ser um alvo terapêutico promissor”, diz Cyril Sobolewski. “O próximo passo seria gerar anticorpos específicos capazes de neutralizar a proteína e impedir seu efeito carcinogênico”. Esse tipo de abordagem, chamada imunoterapia, já mostrou resultados promissores na luta contra vários tipos de tumores.

Fontes: Abeso, Sboc.

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