Summit Saúde 2019 discute os desafios da implementação de novas tecnologias

5 de setembro de 2019 7 mins. de leitura
Grandes nomes do setor se reuniram para debater a chegada de novas práticas e técnicas inovadoras para pacientes e profissionais da saúde

A interseção entre saúde e tecnologia foi um dos principais temas do Estadão Summit Saúde 2019, evento que aconteceu no dia 22 de agosto em São Paulo e contou com a presença de vários nomes da área para discutir inovações e propor melhorias no setor. O encontro, que se estendeu ao longo do dia, ocorreu no hotel Maksoud Plaza.

Logo na abertura, o keynote speaker Fábio Latuf Gandour — médico e cientista com 28 anos de experiência trabalhando na IBM — se propôs a desconstruir os temas da agenda do dia para provocar uma reflexão no público. Ele lembrou de como muitos profissionais rejeitaram o ultrassom quando a técnica começou a ser utilizada em alguns centros do País e ressaltou que o uso de novas tecnologias “explode” quando a rejeição às novidades cai.

Gandour também falou sobre como algumas inovações podem ser benéficas para o campo, usando como exemplo possíveis cirurgias feitas a distância através da conexão 5G e o uso de algoritmos e inteligência artificial para auxiliar os profissionais de saúde durante os diagnósticos. Para o cientista, não se pode esquecer que o conhecimento teórico de base continua sendo essencial na formação de novos médicos.

Telemedicina no Brasil

O primeiro painel do dia foi dedicado a discutir os benefícios e riscos da telemedicina. Ele contou com a presença de Aldemir Soares, integrante do Conselho Federal de Medicina (CFM) e relator da resolução que regulamenta a telemedicina no Brasil; Cesar Biselli, coordenador de inovação e tecnologia do Hospital Sírio-Libanês; Caio Soares, diretor-médico da Teladoc Health Brasil; e Mario Jorge Tsuchiya, presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM) de São Paulo.

Em sua fala, Tsuchiya também citou a rejeição ao ultrassom na época em que a tecnologia era recente e destacou a importância de incluir a telemedicina no currículo de educação para assegurar que ela seja bem implementada. Para Soares, a novidade pode ser comparada aos patinetes elétricos, que surgiram nas grandes cidades a partir de uma necessidade. “A sociedade precisa se sentir segura de que essa técnica irá trazer mais benefícios para a população”, completou.

Entre os exemplos atuais de uso da telemedicina, Biselli citou as populações ribeirinhas do Amazonas. Em alguns casos, moradores da região precisavam navegar por sete dias para chegar ao consultório mais próximo, o que acaba levando muitos a abandonarem os tratamentos. Apenas com a utilização de um telefone e conexão com a internet foi possível otimizar esse atendimento e tornar o Estado uma referência na prática.

Regulamentação dos planos coletivos

Na sequência, um painel patrocinado pela Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (Anab) discutiu as mudanças ocasionadas pela aprovação das Resoluções Normativas nº 195 e nº 196, de 14 de julho de 2019. Participaram da mesa Alessandro Acayaba, presidente da Anab; José Luiz Gomes, presidente da Associação Paulista de Medicina; Leandro Fonseca, diretor-presidente e diretor de gestão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); além de Ricardo Villas Bôas, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Para Fonseca, as resoluções trouxeram maior segurança jurídica para todos. Ele também ressaltou que a ANS não tem preferência pelo tipo de adesão aos planos, sejam eles individuais ou coletivos. Já Amaral questionou se a ANS não poderia incluir a presença de programas de prevenção no cálculo do reajuste que as empresas estão autorizadas a fazer. Ainda, o ministro Villas Bôas lembrou que essas mudanças nos valores precisam ser justificadas — algo que contribui para que, por exemplo, idosos não sejam discriminados por um aumento desproporcional.

Desafios da inovação em saúde no Brasil

Para falar sobre os desafios da inovação na área, o terceiro painel do Estadão Summit Saúde 2019 contou com Alexandre Chiavegatto Filho, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP); Luiz Gustavo Kiatake, presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS); Mauro Junqueira, secretário-executivo do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems); e Tastuo Suzuki, diretor financeiro da Magnamed.

Junqueira confirmou que a maioria dos municípios brasileiros ainda está muito longe do ideal na área de informatização do sistema de saúde, um problema que é agravado nas cidades menores. Ele classificou como um “mundo ideal” aquele no qual qualquer profissional de saúde poderia ser autorizado pelo paciente a acessar o histórico completo dele, evitando problemas comuns em sistemas não digitalizados, como refação de exames apenas pelo fato de a pessoa ter se dirigido a locais de consulta diferentes.

Kiatake concordou com a necessidade de que essas informações estejam disponíveis de maneira mais organizada. “Como consumidores, deveríamos cobrar que os diferentes dados de saúde sejam integrados”, afirmou. Iniciativas como o aplicativo Meu DigiSUS e a carteira de vacinação digital, que começou a ser implementada em alguns locais, foram citadas como exemplos positivos que podem ser aprimorados.

Tecnologia e empatia na atenção primária

Mas nem mesmo toda essa tecnologia que foi tema dos debates até aqui pode resolver um dos principais problemas da área: as falhas na comunicação entre os profissionais de saúde e quem está sendo atendido. Discutiram esse assunto Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury; Fábio Leme Ortega, CEO do Canal Doutor Ajuda; Orestes Pullin, presidente da Unimed Brasil; e Luiz Vicente Figueira de Mello, supervisor do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Ortega tem um canal no YouTube que publica vídeos semanalmente tirando dúvidas e desmentindo boatos sobre a área de saúde. Ele acredita que essa é uma boa forma de melhorar a comunicação entre médicos e pacientes, além de servir como uma fonte de combate às fake news que podem ser facilmente encontradas no Google e compartilhadas por aplicativos de mensagens.

A opinião recebeu o apoio dos colegas de mesa. O psiquiatra Figueira de Mello ressaltou a importância de que os jovens médicos sejam preparados nas faculdades para ter contato direto com os pacientes. Para ele, isso é especialmente necessário no Brasil por se tratar de um país muito diverso. Já Marinelli destacou que é preciso empoderar o paciente para que ele entenda a própria limitação do seu conhecimento e se sinta confortável ao procurar ajuda especializada.

Medicina baseada em valor

Para fechar o dia, a discussão foi sobre os modelos de remuneração da área, debate normalmente centrado entre os métodos fee-for-service e fee-for-value. Estiveram presentes Vera Valente, diretora-executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde); Gustavo Campana, diretor médico da Dasa; Ary Ribeiro, vice-presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados; e Antonio Antonietto, diretor médico do Hospital Vila Nova Star.

Para Antonietto, o foco ao se pensar em qualquer proposta para a área deveria estar no paciente, e não no médico. Para ele, entregar valor não pode ser algo necessariamente associado ao fee-for-service, e é preciso pensar nos pacientes como membros da sociedade.

Na sequência, Valente indicou que, apesar de as novas tecnologias terem capacidade de inovação virtualmente ilimitada, os orçamentos apresentam limites. Ela acredita que existem boas experiências nos sistemas de saúde pública de países europeus que podem servir de inspiração para o Brasil.

Ficou interessado no conteúdo do Estadão Summit Saúde 2019? Acessando esta página você pode assistir a todas as palestras na íntegra. O vídeo estará disponível por 90 dias após o fim do evento.

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