Única variação genética do coronavírus domina infecções no mundo

29 de julho de 2020 5 mins. de leitura
Apesar de já terem sido identificadas 200 mutações genéticas, uma variação pode ser responsável por causar covid-19 na maioria do mundo

Cientistas do mundo todo fizeram o sequenciamento genético do coronavírus, permitindo detectar cerca de 200 mutações genéticas, bem como a forma de disseminação do vírus pelo mundo. Agora, pesquisadores do Laboratório Los Alamos, no Estados Unidos, conseguiram identificar uma variação capaz de aumentar o potencial infeccioso do Sars-CoV-2.

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Um artigo, ainda não revisado pelos pares, foi publicado em julho na revista científica Cell e afirma que a propagação da mutação pesquisada supera a cepa original do coronavírus. O estudo procurou rastrear as mudanças na proteína spike do novo coronavírus para elucidar os mecanismos de disseminação da doença e dar suporte ao desenvolvimento de medicamentos e vacinas.

Em publicação anterior em abril de 2020, o mesmo grupo de pesquisa já tinha encontrado indícios que sugeriram uma associação de uma variante com cargas virais mais altas no trato respiratório superior.

Variação genética

Cientistas estudaram variações genéticas do Sars-CoV-2 em todo o mundo e identificaram variante predominante. (Fonte: Shutterstock)

O rastreamento da evolução do novo coronavírus globalmente é possível porque cientistas em todo o mundo estão disponibilizando rapidamente seus dados através do banco de dados de sequência viral conhecido como GISAID. Dezenas de milhares de sequências estão disponíveis nesse projeto, e isso permitiu à equipe de pesquisa identificar o surgimento da variante D614G.

Quando comparado a outros vírus, o Sars-CoV-2 tem uma baixa taxa de mutação geral. Muito menor, por exemplo, que as varições do vírus de influenza e HIV-Aids. A variante D614G aparece como parte de um conjunto de quatro mutações vinculadas. Parece que elas surgiram uma vez e, depois, foram transmitidas pelo mundo como um conjunto consistente de mutações.

A variante do Sars-CoV-2 chamou a atenção dos pesquisadores no início de abril. “Observamos um padrão surpreendentemente repetitivo”, declarou Bette Korber, principal autora do estudo, em release divulgado pelo Laboratório Los Alamos. “Em todo o mundo, mesmo quando as epidemias locais tinham muitos casos da forma original circulando, logo após a introdução da variante D614G em uma região, ela se tornou a forma predominante”, completa.

Proteína spike

Mutação modifica proteína spike, presente na “coroa” do vírus. (Fonte: Shutterstock)

A mutação é responsável por uma alteração pequena, mas eficaz, na proteína spike, utilizada pelo coronavírus para entrar nas células humanas. A proteína provoca a fusão da membrana celular com a capa protetora do coronavírus, permitindo a entrada do material genético do Sars-CoV-2 no interior da célula.

Dessa maneira, a partir da mutação o coronavírus teria maior facilidade para infectar as células. Isso explicaria a predominância encontrada na maior disseminação da variante D614G, quando comparada com a cepa original do vírus.

Por esse motivo, a spike, localizada na “coroa” do vírus, é o principal alvo do desenvolvimento de pesquisas para a produção de anticorpos capazes de neutralizar o coronavírus. A demora da resposta imunológica do organismo à proteína está associada ao desenvolvimento de sintomas mais graves da enfermidade.

Origem da mutação

Os pesquisadores desenvolveram um método de identificação de variantes mais prevalentes em diferentes localizações geográficas, em níveis nacional, regional e municipal. Os cientistas focaram suas pesquisas quando a presença de uma variante foi observada de forma repetitiva em áreas geográficas distintas.

A alteração no gene D614G quase sempre está acompanhada de três outras mutações que, combinadas, se tornaram a forma dominante do Sars-CoV-2. Até março, a variante D614G era rara em todo mundo e representava apenas 10% das sequências genéticas mapeadas. Ao longo de março, o conjunto de mutações passou a representar 67% dos genomas de coronavírus mapeados. Entre 1º de abril e 18 de maio, a variante foi encontrada em 78% do material genético do Sars-CoV-2.

Essa transição aconteceu de forma diferente nas regiões do mundo. A mutação começou a se propagar pela Europa e migrou para a América, começando por Estados Unidos e Oceania. Por fim, a variante alcançou a Ásia, que até o momento é apontado como continente de origem da disseminação mundial do vírus.

Ações preventivas

Ao mesmo tempo que os cientistas afirmam que a descoberta de variações genéticas do coronavírus pode mostrar caminhos para o desenvolvimento de vacinas e remédios, reforçam a importância de medidas preventivas contra a disseminação da doença em todo o mundo.

“Essas descobertas sugerem que a forma mais nova do vírus pode ser transmitida mais rapidamente do que a forma original. Independentemente de essa conclusão ser ou não confirmada, ela destaca o valor do que já eram boas ideias: usar máscaras e manter o distanciamento social”, afirma Korber.

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Fontes: Cell e Laboratório Los Alamos.

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