Estudo de Harvard estima que um ressurgimento do contágio com coronavírus possa acontecer até 2024

De acordo com uma pesquisa desenvolvida por um grupo de cientistas da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, caso não sejam desenvolvidas formas de tratamento eficiente ou uma vacina para combater as infecções pelo novo coronavírus, o distanciamento social prolongado ou intermitente pode ser necessário até 2022.

O estudo, publicado na revista Science, alerta que, mesmo com a eliminação aparente do vírus, a vigilância sobre a covid-19 deve ser mantida. Os pesquisadores afirmam que se a imunidade ao Sars-CoV-2 não for permanente, provavelmente o vírus entrará em circulação regular. Por isso, acreditam em um possível ressurgimento do contágio até 2024.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que serão necessários mais de 18 meses para o desenvolvimento completo de uma vacina. Até lá, o distanciamento social é a estratégia mais eficiente para reduzir o pico de intensidade da epidemia, diminuindo o risco de sobrecarregar os sistemas de saúde e ganhando tempo para desenvolver tanto tratamentos como vacinação contra o novo coronavírus.

Os autores do estudo afirmam que o distanciamento prolongado, mesmo que intermitente, provavelmente terá consequências econômicas, sociais e educacionais profundamente negativas.

Os pesquisadores, no artigo publicado, argumentam que o objetivo da “modelagem de tais políticas não é as endossar, mas identificar trajetórias prováveis da epidemia sob abordagens alternativas, bem como intervenções complementares, como expandir a capacidade da UTI e tratamentos para reduzir a demanda da UTI”.

Desenvolvimento da pesquisa

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As experiências da China, da Itália e dos Estados Unidos demonstram que a covid-19 pode sobrecarregar até as capacidades de assistência médica de países com recursos de saúde considerados suficientes. Sem tratamentos farmacêuticos específicos, as intervenções se concentraram no rastreamento de contatos, quarentena e distanciamento social.

A intensidade, duração e urgência necessárias dessas respostas dependerão do desenvolvimento da onda pandêmica inicial e da dinâmica de transmissão subsequente do novo coronavírus. Por isso, os pesquisadores realizaram projeções da transmissão do Sars-CoV-2 até 2025.

Para tanto, utilizaram estimativas de sazonalidade e imunidade de outros coronavírus, a partir de séries temporais dos Estados Unidos, para construir um modelo de disseminação da covid-19. O estudo buscou identificar fatores virais, ambientais e imunológicos que, em conjunto, podem determinar a dinâmica da covid-19.

Um modelo matemático foi utilizado para projetar cenários potenciais de transmissão do novo coronavírus durante o período de pandemia e o após. Em seguida, usando esse modelo, os cientistas avaliaram a duração e a intensidade das medidas de distanciamento social. Essas informações podem ser necessárias para manter o controle de transmissão do Sars-CoV-2 nos próximos meses, considerando as capacidades de cuidados intensivos existentes e a expansão dos serviços de saúde.

Futuro da disseminação da doença

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Os pesquisadores acreditam que outros surtos recorrentes da covid-19 devem acontecer após a onda pandêmica inicial mais grave, especialmente no inverno. A transmissão do novo coronavírus poderia se assemelhar à da gripe pandêmica, circulando sazonalmente após causar uma onda global inicial de infecção.

A dinâmica de transmissão pandêmica e pós-pandêmica do novo coronavírus dependerá de fatores como o grau de variação sazonal na transmissão, bem como a intensidade e o momento das medidas de controle.

Os pesquisadores apontam que estudos sorológicos são necessários para determinar a extensão, a duração da imunidade ao novo coronavírus e os efeitos da imunidade cruzada entre diversos tipos de coronavírus.

A incidência total da doença de covid-19 nos próximos cinco anos será influenciada pela entrada ou não do coronavírus em circulação regular após a onda pandêmica inicial. A possibilidade de recirculação da doença depende principalmente da duração da imunidade gerada pela infecção pelo Sars-CoV-2.

No caso das infecções causadas pelos coronavírus HCoV-OC43 e HcoV-HKU1, que são considerados a segunda causa mais comum de resfriado comum no mundo, a imunidade parece diminuir consideravelmente dentro de um ano. Estes vírus causam surtos anuais de doenças respiratórias no inverno em regiões temperadas, sugerindo que o clima no inverno e os comportamentos das pessoas podem facilitar a transmissão, como é o caso da gripe.

Além disso, os coronavírus podem induzir respostas imunológicas cruzadas: a infecção por Sars-CoV-1 pode gerar anticorpos neutralizantes contra HCoV-OC43 e a infecção por HCoV-OC43 pode gerar anticorpos reativos cruzados contra Sars-CoV-1.

As estimativas da pesquisa foram realizadas considerando que a imunidade ao Sars-CoV-2 induzida pela infecção pode durar pelo menos dois anos.

Assim como a gripe pandêmica, muitos cenários mostram que o novo coronavírus pode entrar em circulação depois de um tempo após a pandemia. Com isso, a periodicidade dos surtos dependerá do tempo de imunidade ao novo coronavírus após a infecção, podendo ser anuais como os resfriados mais comuns, ou até bienais como estimam os cientistas no estudo.

Fontes: Science Magazine, Organização Mundial da Saúde.