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Descoberta contraria crença de que a genética seria a principal causa de uma vida longa e coloca luz sobre condições sociais em diferentes contextos


A longevidade ou mesmo o desejo de ser imortal são questões recorrentes na história. Se por um lado continua sendo uma tarefa da ficção; por outro, a possibilidade de estender a vida humana com qualidade por muitos anos é um campo importante na ciência atual.

E as pesquisas mais recentes têm chegado a uma conclusão interessante: os fatores genéticos, de fato, são importantes, como se pensava, mas não são os mais determinantes para a longevidade. Segundo um estudo do Departamento de Saúde Pública da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, no Estado de São Paulo, o tempo de vida é determinado em apenas 25% pelo DNA.

Old Couple Walking While Holding Hands
(Fonte: Pexels)

De acordo com pesquisadores brasileiros, foi possível verificar que os descendentes de pessoas centenárias apresentavam riscos menores de infarto, hipertensão e diabetes, doenças intimamente vinculadas à idade. Esses indivíduos envelheciam mais lentamente, e as doenças, quando presentes, costumavam ocorrer em idade bem mais avançada do que a da média da população. No entanto, é difícil precisar com exatidão a importância das dimensões genética, ambiental e social, uma vez que é um fenômeno complexo.

O pesquisador Miguel Pita, da Universidade Autônoma de Madrid, chegou a uma conclusão semelhante. Para ele, o peso do DNA na longevidade é de 15% a 30% e só passa a ser realmente determinante a partir da oitava ou nona décadas de vida. Antes disso, hábitos saudáveis — uma boa dieta, beber pouco, fumar pouco e se exercitar com frequência — são os responsáveis por garantir muitas festas de aniversário, independentemente da carga genética.

O foco para a compreensão da longevidade, portanto, tem recaído com mais intensidade sobre os aspectos ligados à qualidade de vida, assim como a discussão passa por envelhecer com o máximo de qualidade física e mental. Como explica Ana Tereza Dias Vasques, mestre em Ciências do Comportamento pela Universidade de Brasília (UnB), é importante recuperar a ideia de que devemos acrescentar vida aos anos, e não apenas o contrário, e de que a qualidade de vida é um campo que atravessa os eixos educacional, político e econômico.

Aspectos sociais

aconselhamento, afeição, alegre
(Fonte: Pexels)

Um olhar mais atento sobre os aspectos sociais da longevidade pode ser revelador. Segundo a Rede Nossa São Paulo, que organizou o Mapa da Desigualdade de 2016 na cidade, um paulistano de Alto de Pinheiros vive, em média, 25 anos a mais que um paulistano de Cidade Tiradentes — e menos de 40 quilômetros separam os bairros.

A explicação para isso está em outros números analisados pelo Estadão. Na Bela Vista, a taxa ideal de leitos hospitalares é garantida: 3 a cada 1 mil habitantes; na Vila Medeiros, há 0,041 leito. Em Marsilac, a cada 10 mil habitantes, a taxa de assassinatos é de 4,95, enquanto em Moema é de 0,114.

Outros aspectos também são ilustrativos. Enquanto na região da Sé há quase oito livros por habitante nas bibliotecas públicas, no Jardim São Luís há apenas 0,001; enquanto na Vila Andrade cerca de 50% das habitações são características de favelas, no bairro Pinheiros essa taxa é de 0,081%. Em relação a cinemas, há 1 sala a cada 1 mil habitantes na Barra Funda, mas apenas 0,0039 para cada 1 mil pessoas no Sacomã.

Além dos fatores objetivos, há aqueles de ordem simbólica. Segundo os pesquisadores da Unesp, foi possível relacionar a longevidade dos ferroviários mais idosos da região de Botucatu com o significado social do trabalho: a memória da construção das ferrovias e a emergência do progresso que os trilhos permitiram parecem ter sido determinantes a ponto de os próprios idosos assim as perceberem.

Esses são elementos importantes para planejar a terceira idade da nossa sociedade com uma expectativa de vida cada vez maior. Podemos esperar idosos mais longevos (e mais felizes) se desde já formos capazes de oferecer melhor qualidade de vida a crianças e adultos.

Fontes: Scielo, Universidade de Brasília.