Pesquisa mostra que é possível retirar material genético de nervos enxertados

Pesquisadores brasileiros identificaram um método eficaz para reduzir a rejeição de órgãos transplantados. O estudo foi realizado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) que investigou métodos de descelularização em órgãos, o que envolve remover componentes genéticos dos nervos periféricos vindos de doadores, preservando a arquitetura da matriz extracelular.

Métodos de descelularização já são utilizados para a produção de órgãos e tecidos com características do receptor. Na pesquisa desenvolvida no Paraná, a descelularização foi feita por meio de detergentes químicos e métodos físicos ultrassônicos. A técnica tem baixo custo, semelhante ao do método tradicional, e está em processo de obtenção de patente.

O estudo foi desenvolvido pelo ortopedista, traumatologista e estudante de pós-graduação em Ciências da Saúde, Carlos Eduardo Motooka, sob a orientação do professor Felipe Tuon, especialista em doenças infecciosas e microbiologia clínica.

A nova técnica diminui o tempo de recuperação do paciente e colabora para a sua volta às atividades cotidianas. Além disso, permite reduzir os custos com o tratamento de maneira direta e indireta, ao reduzir as complicações relacionadas à perda funcional de membros, às dores constantes e à perda da capacidade motora.

Objetivo da pesquisa

O objetivo inicial foi promover a melhoria da qualidade de vida de pacientes que sofreram acidentes e ferimentos que afetaram nervos. As lesões nessas estruturas podem ser causadas de diversas formas, como corte, perfuração, esmagamento, choque elétrico e fratura de ossos próximos aos nervos. As causas mais comum são acidentes de automóvel, agressões graves e incidentes com serras e facas.

As complicações de uma lesão nos nervos podem incluir dores constantes e perda da capacidade motora, comprometendo a rotina, a capacidade de trabalho e a empregabilidade das vítimas. O tratamento mais comum é por meio de enxertos, com a técnica que cria uma espécie de tubo condutor para facilitar a regeneração celular ao aproximar as extremidades do nervo no local do enxerto. No entanto, o método apresenta uma série de fatores de risco, como desencadeamento de resposta imune e rejeição, além de perda de função motora da área doadora.

“Com o estudo, buscamos contribuir com o desenvolvimento de métodos simples, reprodutíveis, de baixo custo. Isso trará benefícios a diversos pacientes, evitando uso de imunossupressores pós-operatório, diminuindo tempo cirúrgico, sendo relevante para a saúde pública nacional”, afirmou Motooka em release divulgado pela PUCPR.

Como funciona a técnica

(Fonte: Shutterstock)

O nervo do antebraço é retirado de um doador de órgãos, dissecado para remoção de gordura e debris dos tecidos e depois transportado até o Laboratório de Doenças Infecciosas Emergentes da PUCPR (LEID/PUCPR).

Segundo os pesquisadores, o método químico e ultrassônico é eficaz para eliminar os resíduos de DNA do doador e preservar a estrutura dos nervos. Com isso, ao mesmo tempo que diminuem os riscos de rejeição e de perda de capacidade motora, são mantidos os baixos custos do procedimento, o que torna o método uma opção viável para o tratamento de lesões.

Transplante de órgãos no Brasil

(Fonte: Shutterstock)

A principal dificuldade para a realização de transplante de órgãos é conseguir doadores saudáveis e compatíveis com as necessidades do paciente a ser transplantado. A depender do caso, a estrutura pode vir de pessoas vivas ou com morte encefálica. Como a doação de órgãos pós-morte só pode ser autorizada pela família, é importante que as pessoas comuniquem aos parentes o desejo de, após falecerem, colaborarem para a melhoria da saúde de outras pessoas com essa prática.

O Brasil é o segundo país em número de transplantes, de acordo com informações da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O Sistema Único de Saúde (SUS) financia cerca de 96% dos procedimentos realizados no País, o que o torna o maior sistema público de transplantes do mundo.

Em 2019, foram realizados cerca de 24 mil transplantes, o que representa um crescimento de 5% com relação ao ano de 2012, quando aconteceram pouco menos de 23 mil cirurgias do tipo no Brasil. O número de doadores passou de 12,6 mil em 2012, para 18,1 mil em 2019, com crescimento de 43%. No entanto, ainda não supre a necessidade estimada pela ABTO, com 38 mil brasileiros na lista de espera por um transplante de órgão.

Fonte: ABTO, Revista Fapesp, Uninorte, PUCPR e Ministério da Saúde