Residência médica vs. pandemia: os impactos no Brasil

2 de setembro de 2020 5 mins. de leitura
Viviane Peterle, reumatologista e secretária-executiva da Comissão Nacional de Residência Médica, explica como a pandemia afetou modelos de formação

A pandemia da covid-19 não implicou apenas na criação de novos leitos nos sistemas de saúde e em eventuais sobrecargas mas também na alteração de diversos protocolos seguidos por médicos, enfermeiros e profissionais que estão na linha de frente contra a doença.

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Os cenários de prática para execução dos programas de residência médica no Brasil não ficaram de fora das mudanças, e Viviane Peterle, reumatologista e secretária-executiva da Comissão Nacional de Residência Médica, falou sobre o assunto no Conselho Regional de Medicina.

De acordo com a profissional, pelo fato de o País ter dimensão continental, existem variações regionais consideráveis que afetam a estruturação das ofertas de serviços assistenciais, bem como de recursos materiais e humanos. “O panorama atual, frente às diversas situações epidemiológicas de incidência de casos e taxas de letalidade por cada região e estado, que também exibem perfis variáveis, além da heterogeneidade de execução de respostas e prestação de serviços, vem revelando os desafios e, ao mesmo tempo, um teste a esse modelo de formação”, explicou.

Isso porque, ainda segundo Peterle, a complexidade da situação exige a atuação de profissionais e médicos de áreas específicas, o que acaba gerando carência de especialistas de outras áreas e levando gestores a relocarem residentes para contemplarem as necessidades mais urgentes. Consequentemente, complementa a médica, foi ocorrendo uma redução de demanda dos demais setores não diretamente relacionadas ao enfrentamento da covid-19, como eletivos, clínicos e cirúrgicos.

Desafios na condução de programas de residência exigem adaptações. (Fonte: Unsplash)

Colaboração e protagonismo

Essa é a primeira vez em 70 anos que áreas de competência se desenvolvem simultaneamente com o emprego de protocolos e planos de contingência voltados quase exclusivamente ao atendimento a uma patologia específica, desconhecida e de grande impacto sanitário, conta a reumatologista: “Em muitas localidades ocorre uma contraposição a quesitos necessários nos cenários de prática para a formação integral do médico especialista”.

Considerando todos esses fatores, Peterle reflete sobre a necessidade de um alinhamento quanto à organização das demandas não previstas e não contempladas pelas metodologias já estabelecidas. Estados e municípios foram os primeiros a enfrentar tais desafios, visando garantir a integração e a colaboração do corpo de agentes por meio de recomendações e procedimentos regimentares específicos para o estado de emergência elencados em nota técnica. Excepcionalidade do momento e especificidades dos processos de formação e qualificação profissional de diversas especialidades foram as norteadoras das medidas.

As questões, entretanto, não pararam por aí. “As atualizações constantes do regime desde os primeiros casos registrados em março de 2020, no entanto, problematizaram outras situações quanto ao desenvolvimento das atividades dos quase 44 mil médicos residentes e mais de 7 mil programas de residência médica atualmente no Brasil durante o enfrentamento da pandemia de covid-19”, contou a médica.

Formação de especialistas pode ser comprometida. (Fonte: Unsplash)

Carência na formação

Peterle relata que, em vários cenários, muitos preceptores — aqueles que ensinam — precisaram ser afastados de suas funções por pertencerem a grupos de risco ou realocados para atendimento exclusivo da doença, o que pode comprometer a condução do processo de formação habitual dos residentes em suas especialidades.

“Mesmo que todos os preceptores e residentes tenham a oportunidade de aprendizado e de exercício ético de sua responsabilidade social no atendimento às necessidades de saúde da população, também deve-se valorizar a expertise conquistada pela dedicação e pelo investimento durante o tempo de profissão em determinada especialidade pelo preceptor, o que confere maior qualificação ao programa de residência médica, além de melhor qualidade na assistência para o serviço naquela determinada área”, complementa Peterle.

Outra discussão, ainda de acordo com a especialista, é quanto ao valor das bolsas de residência dedicadas aos profissionais em um momento no qual eles são fundamentais no atendimento a pacientes. O governo federal, através do programa Brasil Conta Comigo, operacionalizado pelo Ministério da Saúde, concedeu uma bonificação extra de R$ 667 para cada residente, “Contudo, a incorporação do recurso para uma melhor condução do processo é uma discussão necessária e oportuna”, explicou.

Por fim, o receio de tudo o que está acontecendo impacta negativamente a saúde física e emocional de residentes, o que é visto como oportunidade de aprendizado por muitos, mas não muda a realidade de que devem ser adotadas adaptações para fazer frente às necessidades da pandemia. “É uma busca inclusiva, reflexiva, regionalizada, contextualizada, aliando a experiência dos serviços às habilidades e competências dos professores e preceptores no contexto técnico-educacional de formação”, finaliza a profissional.

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Fontes: CFM.

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