Antes de flexibilizar a quarentena, autoridades precisam saber quantas pessoas já estão imunes ao novo coronavírus

Áustria, Noruega e Dinamarca são alguns países que já estão criando planos para relaxar as medidas de isolamento social, impostas pela pandemia de covid-19.

O plano das autoridades é flexibilizar a quarentena gradativamente, fazendo com que diferentes setores da sociedade retornem ao trabalho aos poucos, mas ainda mantenham o distanciamento social, a higiene e outras medidas de prevenção ao contágio.

Nesses países, a decisão foi tomada depois que cada um percebeu certo declínio nos números de novos casos e de mortes, assim podendo declarar que a pandemia estava controlada em seu território. Segundo especialistas — epidemiologistas e infectologistas — ouvidos pela Agência Estado, ainda faltam informações para chegar às mesmas conclusões no Brasil.

Ainda não é possível saber qual é a real dimensão do contágio pelo novo coronavírus no Brasil. Embora os números do Ministério da Saúde, divulgados pelo Estadão, no dia 14 de abril estivessem em torno de 25,7 mil casos no País, acredita-se que há uma enorme subnotificação de registros.

Saber exatamente quantas pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus, bem como onde elas estão, é essencial para tomar qualquer decisão referente ao fim do isolamento, segundo os especialistas.

Uma das razões para essa subnotificação é a falta de testes em pacientes com suspeita de covid-19. O presidente do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas, afirmou para o Estadão no dia 13 de abril que havia uma fila de 15,6 mil testes no estado de São Paulo.

No dia seguinte, uma carga com mais de 700 mil testes chegou à região, que é considerada o epicentro do novo coronavírus no país. Uma das expectativas é, justamente, diminuir a subnotificação.

Novo coronavírus está relativamente controlado em países que pensam em sair do isolamento
Novo coronavírus está controlado nos países que pensam em sair do isolamento. (Fonte: Unsplash)

Por que as informações são importantes?

Um dos pontos mais citados pelos especialistas ouvidos pela Agência Estado é que, sem testes em massa, é impossível saber quantas pessoas já foram infectadas pelo novo coronavírus, já estão curadas e imunes a ele. Essa proporção de pessoas já infectadas e curadas é chamada de taxa de imunidade de rebanho ou imunidade de grupo.

Como afirma Fernando Bozza, infectologista da Fiocruz, “este é um dos parâmetros mais importantes para planejarmos a saída [do isolamento]. Se essa taxa ainda for muito baixa, ou seja, se houver um grande número de pessoas não imunes, o risco de termos uma segunda onda é muito alto”.

Com testes em massa e informações mais detalhadas acerca da dimensão do novo coronavírus no país, é possível saber também quais são os focos de infecção e decretar medidas de isolamento mais específicas, acredita Antonio Flores, da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul.

Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas, a saída do isolamento deve ser feita em etapas e com muito cuidado. Os testes em massa, com devida identificação das pessoas já imunizadas, é um dos fatores mais importantes nesse processo.

“No momento, a única maneira segura de recompor a força de trabalho é com o teste em massa, a identificação dos imunizados e a reinserção paulatina dessas pessoas no mercado”, afirmou Hallal em entrevista para a Agência Estado.

Informações são essenciais para flexibilizar medidas de isolamento
Informações são essenciais para flexibilizar medidas de isolamento. (Fonte: Freepik)

OMS também pede cautela para o fim do isolamento

As estratégias dos países que estudam o fim do isolamento e as falas dos especialistas ouvidos pela Agência Estado vão ao encontro das orientações propagadas pela Organização Mundial da Saúde.

Em entrevista coletiva na segunda-feira, 13 de abril, a entidade listou seis critérios que as autoridades devem analisar antes de flexibilizar medidas de isolamento, dentre as quais está a capacidade do sistema de saúde "detectar, testar, isolar e tratar" todos os casos do novo coronavírus no país.

Além disso, a OMS também afirma que os países só podem relaxar o isolamento quando a transmissão local do novo coronavírus estiver controlada no território — outra análise que demanda informação. Os outros critérios listados pela OMS são: minimizar riscos de surtos em condições especiais, como instalações de saúde e casas de repouso; medidas de prevenção em locais como escolas ou trabalho; prevenção contra casos importados de outros países ainda afetados; comunidades engajadas e conscientes sobre a necessidade de higiene e distanciamento físico.

A entidade também alerta que o fim do isolamento não deve ser feito de uma hora para outra, mas sim em etapas. Aqui no Brasil, o epidemiologista Pedro Hallal faz uma analogia para explicitar esse pensamento: "Não é uma chave de luz que eu desliguei e depois vou ligar de novo. Esse ‘ligar’ será gradativo".

Antes disso, contudo, ele e os outros especialistas ouvidos pela Agência Estado são categóricos: para traçar um plano seguro de saída do isolamento, é preciso ter mais informações sobre a dimensão do novo coronavírus no Brasil.

Fontes: Organização Mundial da Saúde, NCBI, Research Gate, Urotoday, MedRxiv, SBim, MCTIC, Science Magazine.