Artigo publicado pela Academia Americana de Pediatria cria diretrizes para melhorar o atendimento à população negra

A população negra é a mais assassinada no Brasil. De acordo com o Atlas da Violência de 2019, mais de 75% das vítimas de homicídio no País são negras. Mas, não é “apenas” a morte violenta intencional que atinge os negros. O racismo tem impacto importante também na saúde dessa população.

Segundo artigo publicado pela Academia Americana de Pediatria, o racismo pode afetar a saúde ainda no útero; isso porque a exposição intensa a hormônios do estresse durante a gravidez pode potencializar o nascimento com baixo peso, além de aumentar a taxa de mortalidade infantil. Ainda, o difícil acesso das mulheres negras ao pré-natal de qualidade acentua o problema.

Em 2018, a ONU alertou para o problema: os negros têm a maior incidência de problemas de saúde evitáveis no Brasil. Entre elas, está a mortalidade de recém-nascidos antes dos seis dias de vida, infecções sexualmente transmissíveis, hanseníase, tuberculose e mortes maternas.

A violência obstétrica é outro problema. Publicado em 2017, o trabalho A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil — desenvolvido por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz — mostrou que o maior risco de um pré-natal com menos orientação tanto sobre o trabalho de parto quanto de possíveis complicações atinge as mulheres negras.

No momento do parto, foram elas que receberam menos anestesia local quando a episiotomia foi necessária.

(Fonte: Pixabay)‌‌

Os piores indicadores de saúde com maior incidência de doenças são dessa população, de acordo com o Ministério da Saúde. Em 2016, 55% dos casos registrados de Aids eram entre negros, com 58,7% de óbitos. As notificações de sífilis no mesmo ano também atingiram a população negra com mais força. Entre as gestantes, 59,8% eram negras, assim como a maioria das mães das crianças com sífilis congênita.

Em 2014, foram notificados mais de 31 mil casos de hanseníase, cuja transmissão se relaciona às condições precárias de saúde — mais de 69% foram registrados entre os negros. O mesmo cenário preocupante se confirmou com os casos de tuberculose naquele ano, que foram de 57,5%.

Na infância, o preconceito racial pode causar graves problemas especialmente referentes às doenças mentais. O estresse causado pode fazer com que as crianças se sintam ameaçadas e, com isso, criem hipervigilância. Como resultado, podem desenvolver estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

Já na idade escolar, o racismo também é um dos fatores causadores da depressão. No artigo publicado pela Academia Americana de Pediatria, um estudo é citado e aponta que meninos entre 10 e 15 anos que foram vítimas de racismo estavam mais vulneráveis a desenvolver problemas de comportamento, como a agressividade.

O atendimento precisa mudar

Em 2018, o Ministério da Saúde revelou que 80% da população que depende de atendimento exclusivo do SUS é negra. Já a Pesquisa Nacional de Saúde, de 2015, mostrou que 13,6% das pessoas que se sentiram discriminadas nos serviços destacaram o viés racial.

A academia americana, além de expor o problema, propõe mudanças e pede que os médicos estejam cientes dos efeitos do racismo no desenvolvimento e considerem isso durante o atendimento.

(Fonte: Pixabay)‌‌

A proposta é para que os médicos se envolvam nas comunidades com o objetivo de compreender o meio social e a realidade em que vivem, analisando assim se os sintomas psíquicos podem ter sido consequência de preconceito racial. Para a academia, o consultório precisa ser transformado em espaços onde as famílias se sintam seguras para falar sobre o racismo. O artigo ressalta ainda o quanto mudanças pequenas e básicas no atendimento podem impactar positivamente a saúde da população.

O desemprego e a pobreza da população negra também podem determinar a qualidade da saúde. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, 64,3% dos desocupados no país são pretos e pardos. O acesso limitado ou inexistente à renda traz consequências graves, como má alimentação, más condições de moradia, falta de saneamento básico — e, com isso, mais exposição a doenças infectocontagiosas.

A coordenadora da ONG Criola, Lúcia Xavier, ressalta que a população negra não é doente; ela está doente porque vive com menos qualidade. Além disso, lembra que é necessário o enfrentamento ao racismo institucional. “O combate ao racismo institucional é fundamental para a equidade, mas a falta de saúde resulta de uma série de outros fatores ligados às práticas racistas”, disse em entrevista publicada no site das Nações Unidas Brasil.

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Fontes: Nações Unidas Brasil, Estadão.