Nicotina pode afetar o cérebro de adolescentes

1 de abril de 2020 4 mins. de leitura
Além da dependência, outras consequências podem ser verificadas entre os jovens

Os dados obtidos e apresentados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam para uma queda no número de fumantes no Brasil. Segundo as pesquisas realizadas pelo órgão, as ações desenvolvidas pela Política Nacional de Controle do Tabaco estão diretamente ligadas à redução verificada.

A pesquisa apresenta os comparativos do número de fumantes no Brasil. Em 1989, cerca de 34,8% da população acima de 18 anos era fumante, já os resultados mais recentes apontam o percentual total de adultos fumantes em 14,7 %. As informações analisadas mostram que, em linhas gerais, houve uma redução de 46% no número de fumantes ativos no Brasil.

Alguns fatores favorecem a dependência

Embora o cenário se apresente otimista, algumas informações sobre o uso do cigarro entre jovens e adolescentes preocupam a sociedade. Com base no estudo desenvolvido pelo biomédico Paulo Roberto Xavier Tomaz na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), alguns fatores genéticos podem contribuir para a rápida dependência química da população mais jovem.

Quem apresenta genes CHRNA 2, 3 ou 5, por exemplo, pode desenvolver o vício sem, necessariamente, ter o hábito de fumar por muito tempo, isso porque a nicotina pode se relacionar diretamente com as funcionalidades do fragmento genético. Mesmo que a notícia seja um alerta para os cuidados sobre o contato de jovens com a nicotina, o estudo pode indicar novos caminhos de prevenção e tratamento contra o tabagismo.

(Fonte: Shutterstock)

Mudanças genéticas na adolescência

Levando em consideração o estudo feito pelo biomédico Paulo Roberto Xavier Tomaz na (FMUSP), existe uma relação direta entre a nicotina e os genes, o que torna bem difícil avaliar os riscos de fumar apenas um cigarro enquanto se está com amigos ou acompanhando um cerveja, isso porque não se consegue saber se determinada pessoa pode, de fato, utilizar o tabaco apenas uma vez sem ter danos ou se tornar dependente por conta da genética.

Um outro estudo publicado no volume 4 da Revista de Biologia Psiquiátrica acompanhou jovens de 14 anos que já tinham o hábito de fumar. Alguns exames como ressonância magnética, testes de personalidade e neuropsicológicos foram realizados para avaliar as condições de saúde a que estavam submetidos. Dois anos depois, já com 16 anos, as análises foram repetidas. Os resultados apresentaram mudanças significativas em algumas regiões do cérebro, o que indica a atuação direta da nicotina na massa cinzenta de cada um deles.

Outras consequências

(Fonte: Shutterstock)

Outro estudo, realizado na Universidade State Florida nos Estados Unidos e publicado na revista científica Neuropsychopharmacology, aponta para uma crescente ocorrência do desenvolvimento de depressão na fase adulta entre adolescentes e jovens que usam cigarro. Algumas experiências foram executadas e as pesquisas foram aplicadas em roedores. Os especialistas injetaram por 15 dias doses de nicotina em ratos ainda não-adultos, após o período de exposição à substância, os roedores foram testados em situações de estresse e de recompensa. Foram verificadas alterações no comportamento dos ratos, o que sugere a influência da nicotina no desenvolvimento de quadros de doenças como depressão e ansiedade.

Segundo o coordenador do estudo, Carlos Bolanos, em entrevista ao Estadão, os resultados demonstram que a utilização da substância durante a adolescência pode trazer consequências a longo-prazo. Ainda de acordo com o pesquisador, o mesmo experimento foi praticado em ratos adultos que não tiveram sinais de problemas comportamentais.

Os hábitos precisam de atenção

São milhares de substâncias nocivas que podem acarretar graves problemas de saúde, portanto é essencial tratar o fato como uma questão de saúde pública. Para garantir que os números continuem caindo no Brasil é preciso desenvolver ações de conscientização e ir a campo enfrentar o tabagismo e a dependência química.

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