Psoríase: como enfrentar a doença e seus impactos?

4 de novembro de 2020 5 mins. de leitura
Especialistas explicam que não existe cura, mas tratamento multidisciplinar é essencial para minimizar as consequências

Coceiras, lesões avermelhadas e descamações esbranquiçadas na pele são comuns na rotina daqueles que convivem com a psoríase, que, associada a diversas condições, incluindo alterações articulares e do sistema cardiovascular, em 2014 foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença grave e incapacitante para a qual não há cura. É preciso vencer o preconceito e a desinformação, e esse é o objetivo do Dia Mundial da Psoríase, em 29 de outubro.

Além de gerar impactos por seus sintomas, a psoríase chega a comprometer a rotina e o equilíbrio dos pacientes. Um estudo publicado em 2018 no Journal of Dermatological Treatment revelou que 70% dos brasileiros com a doença enfrentam distúrbios emocionais como ansiedade e depressão; 42% estavam sem trabalhar por causa disso.

Rita Lisauskas, blogueira do Estadão e colunista da Rádio Eldorado, apontou no fórum Diálogo Estadão Think Psoríase — Rumo a Uma Vida Sem Marcas, promovido pelo Media Lab Estadão em parceria com a Janssen Farmacêutica, que no Brasil 1,31% (cerca de 2,5 milhões) dos habitantes manifesta a condição em qualquer fase da vida, ainda que seja mais comum a partir dos 40 anos de idade, sendo desencadeada pelas próprias células de defesa do organismo.

“Vale ressaltar que 20% a 30% dos casos no Brasil são considerados graves, ou seja, as lesões tomam grande parte do corpo do paciente”, destaca Lisauskas, que, em um bate-papo com especialistas da área, apresentou diversos aspectos do assunto para abordar temas como predisposição genética, importância de procurar especialistas para diagnóstico adequado e formas de conter a condição.

No Brasil, 2,5 milhões de pessoas sofrem com a psoríase. (Fonte: Shutterstock)
No Brasil, 2,5 milhões de pessoas sofrem com a psoríase. (Fonte: Shutterstock)

De onde vem a psoríase?

Paulo Oldani, chefe do serviço de dermatologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, conta que não se sabe exatamente qual é a origem da psoríase, mas que se trata de uma alteração do sistema imunológico e gera processos inflamatórios. “A forma mais comum, que afeta em torno de 80% dos pacientes, aparece no couro cabeludo, cotovelo, joelho e fim da coluna, áreas de proeminência óssea. Essas são as manifestações mais frequentes, mas podem ocorrer em qualquer lugar.”

Pesquisas atuais indicam um componente genético, portanto pode estar associada a pré-disposição, não existindo um gene específico detectado, comenta Rafael Tomaz, dermatologista e gerente médico da Janssen Farmacêutica. “A gente vê na prática clínica que quem tem psoríase pode ter pai, mãe ou irmão e até mesmo filhos com ela”, complementa. De qualquer modo, esse fator, segundo ele, não é determinante para o surgimento das lesões, ressaltando que meio ambiente, hábitos de vida (tabagismo, abuso de álcool e obesidade) e estresse exercem grande papel nessa história.

Estresse se destaca, como sugere Hericka Zogbi, psicóloga clínica, que indica, ainda, o fator psicossomático. “Não é uma invenção. É uma relação entre fatores mentais e emocionais e o surgimento de uma doença orgânica. Portanto, sim, a psoríase pode ser considerada psicossomática porque pode ocorrer em situações em que o sujeito não consegue dar conta sozinho de todo o estresse, de toda aquela situação interna ou externa. É quando a mente não dá conta e o corpo responde para se defender.” Mas como evitar o desenvolvimento desenfreado da doença?

Priscila Torres, coordenadora da Bioverde, rede de associações de pacientes, explica que a jornada é sempre composta pela dificuldade de chegar a especialistas. Geralmente, um médico clínico é o primeiro contato e, se ele não a detecta, o direcionamento adequado pode ser comprometido. “O encaminhamento precisa ser priorizado conforme a necessidade de cada um”, defende.

Lesões podem se manifestar em diversas partes do corpo. (Fonte: Shutterstock)
Lesões podem se manifestar em diversas partes do corpo. (Fonte: Shutterstock)

Empatia é a palavra-chave

Entender que não se trata de uma doença contagiosa é um passo importantíssimo, assim como a manutenção dos tratamentos indicados mesmo com a inexistência de lesões. Oldani detalha que a gravidade depende do impacto de onde aparecem, não necessariamente da quantidade. Tratamentos tópicos, com pomadas e cremes, são indicados em casos leves; já nos moderados ou graves, a primeira opção é a fototerapia, com tratamento ultravioleta, muito eficaz e pouco disponível.

Comprimidos e injetáveis também estão entre as possibilidades, não se descartando as terapias biológicas, mais modernas. “Dependendo da gravidade tanto de extensão quanto de comprometimento da qualidade de vida, utilizamos essas abordagens”, conta Oldani, dizendo que não se trata de algo simplesmente cosmético, já que a repulsa e o preconceito podem causar um “sofrimento absurdo”.

“É preciso aprender a conviver com a doença, a tratá-la e saber como você vai se relacionar com seus contatos. Se todos os pacientes encontrarem profissionais empáticos e famílias empáticas, essa angústia será reduzida — e é o que desejamos a todos”, declara Torres.

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Fontes: Diálogo Estadão Think.

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