Autópsias revelam que covid-19 pode causar danos ao coração

9 de agosto de 2020 5 mins. de leitura
Procedimentos realizados nos Estados Unidos detectaram comprometimento cardíaco único

Uma série de autópsias conduzidas por patologistas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana em Nova Orleans, nos Estados Unidos, revelou lesões cardíacas atípicas em pacientes com covid-19. Em vez de danos comuns gerados por miocardite, inflamação do músculo do coração, os pesquisadores à frente dos exames encontraram um padrão único de morte celular.

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A descoberta ocorreu após um estudo detalhado dos órgãos de 22 pessoas que faleceram em decorrência da contaminação pelo novo coronavírus. Richard Vander Heide, professor e diretor de pesquisa da instituição, relata que foram identificadas alterações macroscópicas e microscópicas que desafiam noções preestabelecidas do que o microrganismo pode causar.

Ao contrário do primeiro coronavírus, responsável pela Sars, o Sars-CoV-2 não estava presente nas células musculares do coração – sendo que também não havia ocorrência de coágulos sanguíneos oclusivos nas artérias coronárias dos novos casos.

“Embora o mecanismo de comprometimento cardíaco originado da condição seja desconhecido, propomos várias teorias que exigem uma investigação mais aprofundada”, explicou Richard. “Isso levará a uma maior compreensão e a outros tratamentos possíveis”, ele afirmou.

Richard Vander Heide, professor e diretor de pesquisaCentro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual da Louisiana em Nova Orleans (Fonte/Reprodução: LSU Health
Richard Vander Heide, líder da pesquisa. (Fonte/Reprodução: LSU Health)

Resultados de pesquisas anteriores também revelaram danos em pequenos espaços aéreos do pulmão (nos quais ocorrem trocas gasosas), coágulos sanguíneos e sangramento nos pequenos vasos sanguíneos e capilares do pulmão – principais fatores que levam a fatalidades.

“Esses achados, em conjunto com os ventrículos direitos gravemente aumentados, podem indicar estresses extremos no coração devido à doença pulmonar aguda”, ressaltou Sharon Fox, diretora associada de pesquisa e desenvolvimento.

Reação em cadeia

Acredita-se que essas foram as primeiras perícias do tipo realizadas nos Estados Unidos, sendo que a maior parte dos pacientes que passaram por autópsia eram afro-americanos. De 10 homens e 12 mulheres com idade entre 44 e 79 anos, metade tinha diabetes tipo 2 tratada com insulina, 41% apresentavam obesidade e a maioria tinha pressão alta.

Embora em níveis baixos, também foram encontradas infecções virais de algumas células no revestimento dos vasos sanguíneos – o suficiente para causar disfunção e levar à morte celular individual. Além disso, os efeitos da reação exagerada das células do sistema imunológico que combatem a infecção, chamada de “tempestade de citocinas”, podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da doença.

“Considerando que células inflamatórias podem passar pelo coração sem estar no tecido propriamente dito, não se pode descartar a ocorrência de dano endotelial induzido por citocinas”, pontuou Richard, referindo-se a um indicador fundamental da saúde arterial.

Mais comum do que se pensava

A pesquisa, entretanto, não foi a única. De acordo com um estudo publicado no European Heart Journal, mais da metade dos pacientes com coronavírus que passaram por varreduras cardíacas apresentaram “anormalidades” nas funções do coração – incluindo coagulação excessiva, que pode danificar órgãos do corpo todo.

Baseado em dados de 69 países, o levantamento considerou informações de 1.261 pessoas. Uma a cada sete sofreu de comprometimento cardíaco severo, que impactou diretamente suas chances de sobrevivência e recuperação, enquanto 901 delas não tinham problema algum antes de serem contaminadas pelo novo coronavírus.

Os pesquisadores à frente do projeto ressaltaram que o procedimento se limitou apenas àqueles que pudessem, a partir das constatações de seus médicos, ter anormalidades cardíacas. Sendo assim, as descobertas se somam a um crescente campo de evidências de que a covid-19 afeta não apenas pulmão e coração, mas também, devido a coágulos, órgãos fundamentais para a manutenção do organismo.

Marc Dweck, cardiologista consultor da Universidade de Edimburgo. (Fonte/Reprodução: British Heart Foundation)
Marc Dweck, cardiologista consultor da Universidade de Edimburgo. (Fonte/Reprodução: British Heart Foundation)

Marc Dweck, cardiologista consultor da Universidade de Edimburgo, detalha o porquê da importância dos exames: “A covid-19 é uma doença complexa e multissistêmica que pode ter efeitos profundos em muitas partes do corpo, incluindo o coração. Muitos médicos hesitam solicitar ecocardiogramas porque é um procedimento adicional que envolve contato próximo com os pacientes. Nosso trabalho mostra que essas varreduras são importantes, pois melhoraram o tratamento para um terço daqueles que as receberam”.

“Sabe-se que os danos ao coração ocorrem na gripe severa, mas ficamos surpresos ao ver tantos pacientes com covid-19 apresentando as manifestações, além de vários outros com disfunção grave. Agora precisamos entender o mecanismo exato desse problema, se é reversível e quais são as consequências a longo prazo da infecção”, ele finalizou.

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Fontes: ScienceDaily e Business Insider.

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