Coquetel de anticorpos potentes pode tratar covid-19

12 de julho de 2020 5 mins. de leitura
Tratamento que combina anticorpos de pessoas recuperadas e de camundongos se mostrou eficaz contra o novo coronavírus

O microbiologista alemão Emil Adolf von Behring ganhou o Prêmio Nobel de Medicina com um tratamento contra a difteria baseado em soro de um indivíduo infectado. Isso abriu a possibilidade para uma série de terapias, inclusive para o desenvolvimento da vacina como instrumento de prevenção a doenças.

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No entanto, os avanços tecnológicos ao longo do século passado permitiram a progressão do soro convalescente para a utilização de anticorpos recombinantes totalmente humanos. A proposta de humanizar geneticamente o sistema imunológico de camundongos forneceu uma fonte eficiente de anticorpos totalmente humanos selecionados naturalmente.

Recentemente, duas abordagens diferentes produziram tratamentos bem-sucedidos para o Ebola — um de camundongos geneticamente humanizados e o outro de um sobrevivente humano. Pesquisadores da Universidade de Maryland em colaboração com cientistas da Regeneron Pharmaceuticals resolveram utilizar os dois métodos de forma independente para produzir um coquetel de anticorpos contra o Sars-CoV-2.

Produção de anticorpos

Os anticorpos conseguem anular a capacidade do coronavírus de infectar células ao se ligar com a proteína spike, que é utilizada para penetrar a membrana celular. (Fonte: Shutterstock)

Os pesquisadores conseguiram produzir anticorpos por meio de camundongos humanizados geneticamente e das células B derivadas de plasma doado por pacientes convalescentes. Isso permitiu o isolamento de uma coleção de milhares de antígenos totalmente humanos com diversas sequências, propriedades de ligação e atividade antiviral.

Com essa coleção grande e diversificada, os cientistas puderam selecionar pares de anticorpos individuais altamente potentes e capazes de ligar os antígenos ao receptor da proteína spike do coronavírus. Por meio dela, o coronavírus consegue infectar as células, mas a ligação dos anticorpos com a spike neutraliza a ação do vírus.

Mais de 200 anticorpos com grande capacidade de combate ao vírus foram encontrados. As regiões variáveis dos antígenos foram sequenciadas geneticamente para encontrar quais produziram as respostas imunes mais poderosas contra o coronavírus. Dessas, os cientistas conseguiram identificar 40 variações mais eficientes.

Superanticorpos

Mathew Frieman — um dos coautores do estudo e professor de Microbiologia e Imunologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland — estuda os coronavírus nos últimos 16 anos e está examinando o Sars-Cov-2 em seu laboratório desde de fevereiro.

Frieman afirmou, em release da universidade, que “a capacidade da equipe de pesquisar e derivar rapidamente anticorpos usando esses dois métodos permitiu rastrear alguns antígenos eficientes contra os vírus vivos e também determinar quais tiveram os efeitos antivirais mais fortes”.

Uma coleção menor, de quatro anticorpos, foi escolhida para análises adicionais responsáveis por determinar o potencial de neutralização contra o Sars-Cov-2. A afinidade de ligação desses quatro anticorpos contra a proteína spike do coronavírus foi confirmada, incluindo a neutralização de vírus na linha celular epitelial do pulmão humano.

Coquetel de antígenos

Combinação de dois anticorpos replicados a partir de antígenos produzidos por camundongos modificados geneticamente e plasma de pacientes convalescentes se mostrou altamente eficaz contra o Sars-Cov-2. (Fonte: Shutterstock)

“Um objetivo importante desta pesquisa foi avaliar os anticorpos mais potentes que se ligam a diferentes moléculas na proteína spike, para que possam ser combinados com o tratamento”, disse o coautor do estudo Stuart Weston, pesquisador de pós-doutorado no departamento de Microbiologia e Imunologia da Universidade de Maryland.

Dois dos quatro anticorpos se mostraram mais eficientes quando foram utilizados de forma combinada, e os antígenos puderam se ligar a pontos diferentes da proteína do coronavírus. Dessa forma, além de serem eficientes para neutralizar o vírus, a combinação foi capaz de minimizar as chances de fuga do Sars-Cov-2.

Estudos clínicos

Depois dos testes em laboratório, o coquetel de anticorpos será avaliado em um novo ensaio clínico para verificar se o tratamento é eficaz em melhorar a condição de pacientes com a covid-19. A terapia também será estudada como prevenção em profissionais saudáveis que atuam na linha de frente do combate à pandemia e, por isso, apresentam chances altas de contrair o coronavírus.

Dean Albert Reece, vice-presidente de assuntos médicos da Universidade de Baltimore e professor de Medicina da Universidade de Maryland, não participou da pesquisa, mas considera os resultados importantes. “Essa pesquisa em particular não apenas contribui para uma nova terapia potencial contra a covid-19, mas também pode ter implicações mais amplas em termos de desenvolvimento de terapias com anticorpos para outras doenças”, ele afirmou.

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Fontes: Prêmio Nobel, Universidade de Maryland e Science Magazine.

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