Gene da demência duplica chances de infecções graves por covid-19

22 de junho de 2020 5 mins. de leitura
Relação entre casos graves do novo coronavírus em pessoas com demência foi identificada a partir de dados genéticos
Uma pesquisa apontou que, nos 16.749 pacientes hospitalizados por covid-19 em 166 hospitais ingleses entre 6 de fevereiro e 18 de abril de 2020, a demência estava entre as comorbidades comuns e foi associada a maior mortalidade. Sintomas como alterações de consciência, incluindo delírio, são comuns em casos mais graves da infecção respiratória. Estudos anteriores mostraram que pessoas com demência têm três vezes mais chances de desenvolver efeitos graves de covid-19. No entanto, o alto risco pode não ser simplesmente devido aos efeitos da patologia cerebral, de idade avançada, fragilidade ou exposição ao coronavírus em casas de repouso; uma nova pesquisa das universidades de Exeter e Connecticut aponta que a relação entre as duas enfermidades pode estar no mesmo gene. A descoberta indica que o aumento dos riscos de doenças que parecem inevitáveis com o envelhecimento pode ser devido à genética, o que abre caminho para novos tratamentos. A pesquisa ajuda a entender por que algumas pessoas permanecem ativas até os 100 anos de idade enquanto outras ficam incapacitadas e morrem aos 60 anos, afirmou Chia-Ling Kuo, uma das autoras do estudo em comunicado da Universidade de Exeter.

Associação entre demência e covid-19

Pessoas com ancestrais europeus têm variação genética que pode causar demência e infecções graves por covid-19. (Fonte: Shutterstock)
O estudo analisou dados genéticos e de saúde de 500 mil pessoas do Reino Unido, com idades entre 48 anos e 86 anos. O resultado da pesquisa, publicado no Journal of Gerontology: Medical Sciences, aponta que uma mutação genética presente em descendentes de europeus é responsável por aumentar os riscos tanto para infecções graves causadas pelo Sars-Cov-2 quanto para patologias que geram alterações de funções cognitivas, como Alzheimer. Os pesquisadores descobriram que 9 mil dos 383 mil participantes com ascendência europeia estudados tinham duas cópias no gene da variante e4, enquanto mais de 223 mil tinham duas cópias de uma variante chamada e3. O primeiro, esclareceu a equipe, tem risco de demência até 14 vezes maior que o segundo. A equipe cruzou os dados genéticos com as informações dos testes positivos para coronavírus realizados entre 16 de março e 26 de abril em casos de covid-19 em hospitais, sugerindo que esses pacientes desenvolveram sintomas graves provocados pelo Sars-Cov-2. Os cientistas concluíram que a simples presença da variação genotípica e4 duplica as chances de sintomas críticos provocados pelo coronavírus, mesmo quando os pacientes não apresentam a doença cerebral.

Como o gene atua

Uma variante do alelo ApoE interfere no equilíbrio das gorduras no corpo e pode provocar problemas cardíacos e enfermidades cerebrais. (Fonte: Shutterstock)
Os pesquisadores se concentraram em um gene chamado apolipoproteína E (ApoE), que dá origem a proteínas envolvidas no transporte de gorduras pelo corpo e pode existir de várias formas. Interagindo com as moléculas virais e hospedeiras, as isoformas da ApoE interferem de maneira diferente no ciclo de vida viral e na incidência de enfermidades. O alelo e3e3 confere proteção contra doenças cardiovasculares, mantendo a homeostase lipídica. Por sua vez, a variante e4 afeta os níveis e processos de colesterol envolvidos na inflamação por coronavírus, além de aumentar o risco de demência. Os cientistas afirmam que o alelo e4e4 afeta não apenas a função lipoproteína mas também modera as funções que propiciam ou combatem inflamações a partir do macrófagos. A mutação no gene ApoE ainda aumenta infecções causadas pelos vírus de herpes, hepatite C e imunodeficiência humana. O gene ApoE pode estar associado a deficiências genéticas no alelo Ace2, que regula a produção da enzima conversora da angiotensina 2, também responsável pelo controle arterial. A proteína Ace2 é encontrada amplamente nas células alveolares do tipo II nos pulmões, que são utilizados pelo Sars-Cov-2 como receptor e permitem a entrada de células respiratórias.

Relação requer mais evidências científicas

A compreensão da relação entre a alteração genética e a ocorrência de sintomas graves de covid-19 requer mais evidências científicas, afirmam os autores do estudo. A professora Tara Spires-Jones, especialista em neurodegeneração na Universidade de Edimburgo, que não participou da pesquisa, concorda com os cientistas envolvidos. “É possível que o papel da ApoE no sistema imunológico seja importante na doença e que pesquisas futuras possam aproveitar isso para desenvolver tratamentos eficazes”, disse ao jornal britânico The Guardian. Apesar do grande número de participantes do estudo, mostrando uma associação robusta entre as variantes genéticas da ApoE e o risco de covid-19, o resultado não provou que o primeiro causou o segundo, alertou a especialista. Curtiu o assunto? Clique aqui e saiba mais sobre como a mobilidade pode melhorar os espaços.
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