Plantas podem contaminar seres humanos com vírus?

28 de maio de 2020 4 mins. de leitura
Pesticidas e fungicidas podem gerar o desenvolvimento e a migração de doenças

O novo coronavírus (covid-19) se espalhou pelo mundo no fim de 2019, depois que seu agente infeccioso possivelmente conseguiu migrar dos morcegos para os seres humanos. Esse caso estimulou diversas discussões sobre doenças originárias de animais que atingem os seres humanos, mas não chegou a despertar o nosso olhar para aquelas que surgem de plantas e se desenvolvem até chegar ao homem.

Um grande exemplo é o Candida auris (C. auris), um fungo multirresistente e altamente infeccioso que causa infecção capaz de matar 50% das pessoas que são acometidas.

Platanções
(Fonte: Unsplash)

Para migrar das plantas para os seres humanos, fungos como o Candida auris precisam sofrer diversas mutações, que podem ocorrer no host antigo (as plantas), no novo (os seres humanos) ou em ambos. Isso se deve ao fato de que, na natureza, a maioria dos fungos é confinada a hospedeiros exclusivos, pois depende de interações de proteínas que são capazes de replicá-los e transmiti-los entre hospedeiros.

Todas as mutações pelas quais os fungos passam para migrar para os seres humanos fazem com que eles se tornem multirresistentes; o Candida auris, por exemplo, se mostrou resistente às três principais classes de antifúngicos disponíveis na medicina atualmente (azóis, anfotericina B e equinocandinas).

Por que isso acontece?

O processo de mutação para que doenças que atingem plantas cheguem até os seres humanos pode ser bastante demorado, pois envolve a adaptação de todos os componentes químicos necessários para sobreviver em um novo hospedeiro. No entanto, no meio agrícola, esse processo pode ser acelerado pelo uso de produtos de proteção de culturas.

O uso de pesticidas, agrotóxicos e fungicidas é bastante comum no campo para quebrar o ciclo de pragas e diminuir o risco de danos às plantações. Contudo, essa prática leva pragas e doenças a se modificarem mais rapidamente e suas estruturas, a se adaptarem a novos hospedeiros. Em consequência, elas podem se desenvolver a ponto de migrar das plantas para os seres humanos.

Outro agravante do uso excessivo de agrotóxicos é o fato de que, ao entrarem em contato com diversos produtos agressores, as doenças e seus agentes infecciosos criam resistência a diversas toxinas e, quando chegam a atingir os humanos, tornam-se multirresistentes a medicações.

Homem segurando batatas
(Fonte: Unsplash)

Como conter mutações?

O uso de produtos de proteção de culturas no campo pode fazer com que doenças “pulem” das plantas para os seres humanos. Apesar disso, seu uso é necessário para que pragas e doenças não se espalhem nas roças e arruínem as plantações.

Uma saída para esse cenário poderia ser a redução do uso de agrotóxicos, fungicidas e pesticidas no campo. Essa ação retardaria o desenvolvimento de cepas resistentes e também ajudaria a restaurar a diversidade no mundo dos fungos, fazendo com que eles mesmos impedissem outros de se desenvolverem. Ainda, faria com que aqueles que conseguissem se proliferar fossem menos resistentes a medicações.

No entanto, reduzir o uso de produtos de proteção de cultura nos campos poderia significar uma diminuição de mais de 70% na colheita de mercadorias, o que prejudicaria o abastecimento global de alimentos. Sendo assim, outra resolução para essa questão se faz necessária.

A saída mais recomendada seria o incentivo à seleção natural: com o avanço da genética, os humanos conseguiram compreender como é o processo de edição de genes na natureza das plantas; então, poderiam criar formas de fazer com que doenças da roça não migrassem de um hospedeiro para outro.

As técnicas de edição de genes — por meio de pequenos ajustes no genomas das plantas, sem a introdução de material genético estranho a elas — já estão sendo estudadas no âmbito agrícola e podem nos nos permitir ir direto ao ponto e fazer com que uma praga combata a outra. Exatamente como a natureza faria se tivesse tempo suficiente.

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Fontes: Scientific American, The Conversation.

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