Síndrome metabólica: falta de luz solar aumenta riscos à saúde

6 de abril de 2020 5 mins. de leitura
Espectro da luz natural ajuda a queimar gordura no corpo, além de evitar outras enfermidades

Um novo estudo em camundongos concluiu que proteínas sensíveis à luz nas células adiposas podem detectar a luz solar, e consequentemente, a sua baixa incidência pode alterar o comportamento das células de gordura e aumentar o risco de síndrome metabólica — que envolve uma associação de riscos para as doenças cardiovasculares, como ataques cardíacos e derrames cerebrais, enfermidades vasculares periféricas e diabetes. A síndrome também é associada à obesidade, como resultado da má alimentação e do sedentarismo.

Alguns comprimentos de onda da luz, como radiação gama e ultravioleta, podem ser prejudiciais. A pesquisa atual, porém, mostrou um papel diferente e saudável para a exposição à luz. A pesquisa, publicada no Cell Reports, envolveu uma extensa equipe médica ligada ao Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati, nos Estados Unidos, liderada por Richard Lang.

Lang dirige o Visual Systems Group no hospital e é professor de Medicina na Universidade de Cincinnati. O médico é autor e coautor de mais de 120 trabalhos de pesquisa, incluindo análises sobre o desenvolvimento dos olhos e como a luz interage com as células além dos olhos. Seu trabalho nessa direção remonta a 2013, quando ele liderou um estudo publicado na Nature, que demonstrou como a exposição à luz afetava o desenvolvimento dos olhos em camundongos fetais.

Em 2019, Lang e seus colegas publicaram mais dois artigos, sobre possíveis benefícios da terapia com luz para o desenvolvimento do olho em camundongos prematuros, e como os receptores de luz na pele ajuda os camundongos a regular os seus relógios internos.

A proteína opsina

Os pesquisadores se concentraram em uma proteína chamada opsina (OPN3), que está presente em todo o corpo, inclusive em cérebro, testículo, fígado, rins, além de células adiposas e humanas ou nos adipócitos. A proteína é responsável, entre outras funções, pela absorção da luz pelos olhos, sendo formada por uma parte proteica e uma parte derivada da vitamina A.

As opsinas das células cone dos olhos são denominadas fotopsinas. Entre si, diferem em apenas alguns aminoácidos, o suficiente para que absorvam a luz em comprimentos de ondas diferentes. Esses pigmentos são a base da visão a cores. Além de estimular os olhos, os cientistas mostraram que a luz natural pode viajar profundamente através da pele de um camundongo a ponto de ativar a opsina nos adipócitos.

Como a luz solar pode “queimar” a gordura

(Fonte: Shutterstock)

Nas últimas descobertas, a equipe de pesquisa estudou como os camundongos respondem quando expostos a temperaturas frias de cerca de 4 °C. Os pesquisadores já sabiam que os camundongos, assim como os humanos, tremem como resposta interna de queima de gordura para se aquecer. Em seus experimentos, os cientistas usaram camundongos geneticamente modificados que não possuem o gene que codifica a proteína em seus adipócitos.

A pesquisa apontou que o processo de aquecimento interno é comprometido na ausência do gene OPN3 e da exposição específica a um comprimento de onda de 480 nanômetros de luz azul. Esse comprimento de onda é uma parte natural da luz solar, mas ocorre apenas em níveis baixos na maioria das luzes artificiais.

Quando a exposição à luz se dá, o OPN3 solicita que os glóbulos brancos liberem ácidos graxos na corrente sanguínea, em um processo chamado lipólise. Vários tipos de células podem usar esses ácidos graxos como energia para alimentar suas atividades, mas a gordura marrom literalmente queima os ácidos graxos para gerar calor que aquece os camundongos frios.

No entanto, mesmo os camundongos que tinham o gene correto não conseguiram se aquecer quando expostos à luz que não possuía o comprimento de onda azul. Esses dados levaram a equipe a concluir que a luz solar é necessária para o metabolismo energético normal.

Efeitos em humanos

(Fonte: Shutterstock)

Embora os estudos tenham sido conduzido em camundongos, os cientistas acreditam que provavelmente existe um mecanismo semelhante em humanos. O estudo aponta que “se a via do adipócito da luz-OPN3 existe em seres humanos, há implicações potencialmente amplas para a saúde humana”. A síndrome metabólica pode ser ocasionada pelo estilo de vida longe do ciclo natural da vida, sugere a pesquisa.

“Nosso estilo de vida moderno nos sujeita a espectros de iluminação não naturais, exposição à luz durante a noite, trabalho em turnos e jet lag, os quais resultam em perturbações metabólicas”, afirma o artigo.

Os autores do estudo teorizam que “a estimulação insuficiente da via dos adipócitos da luz-OPN3 faz parte de uma explicação para a prevalência da desregulação metabólica em países industrializados, onde a iluminação não natural se tornou a norma”.

Fontes: Medical News Today, Cell, Drauzio Varella, Phys, Biotechtimes, Nccmed, USP.

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