Notícias falsas são transmitidas com maior velocidade do que o próprio coronavírus e podem causar problemas de saúde

Quando o surto do novo coronavírus ainda estava restrito à China, as notícias do surto epidêmico já tinham percorrido todo o mundo. Com elas, uma série de boatos (fake news) inundou a internet com uma capacidade de disseminação superior à do próprio vírus. Aparentemente inofensivas, as notícias falsas podem afetar o combate à covid-19, além de gerar outros problemas de saúde.

O que é infodemia

(Fonte: Anna Demianenko/Unsplash)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) batizou esse fenômeno como infodemia: “uma superabundância de informações — algumas precisas e outras não — que dificultam que as pessoas encontrem fontes e orientações confiáveis quando precisam delas”.

A disseminação de informações falsas não é novidade. Rumores e mensagens científicas foram veiculadas durante os surtos de ebola e zika, e o movimento antivacina também não é novo, de acordo com a OMS. No entanto, pela primeira vez o mundo enfrenta uma pandemia em uma era de “pós-verdade”, em que a opinião pública é modelada mais pelo apelo às emoções e crenças do que por fatos.

A principal fonte de notícias das pessoas tem sido a internet, onde as informações podem circular em redes sociais sem passar por filtros de profissionais do jornalismo e da saúde, além de fontes oficiais do governo. Com isso, a web se tornou um campo amplo para divulgação de notícias imprecisas, não confirmadas e até deliberadamente falsas.

A desinformação pode ser causada por motivos financeiros e ideológicos. Existem tanto pessoas que desconfiam da objetividade da ciência e são aficionadas por teorias de conspiração quanto produtores de conteúdo em busca de audiência e especuladores que tentam lucrar com “curas” milagrosas e outros produtos de saúde.

Os efeitos da infodemia para a saúde

As crises geram altos níveis de insegurança sobre o futuro, causando ansiedade, o que leva à busca de informações sobre as causas e as consequências para entender a situação confusa e tentar reduzir a incerteza e a aflição. Entretanto, com as pessoas sendo bombardeadas com notícias sobre o assunto, a tendência é justamente contrária: o estresse pode aumentar com o constante sentimento de inquietação, enquanto fica mais difícil obter um panorama claro do momento.

Isso leva a uma espiral infinita de busca por mais informações, provocando a elevação do nível de ansiedade, o que pode causar uma diminuição da imunidade. Além disso, o grande volume de dados torna mais difícil a distinção de notícias falsas e verdadeiras.

Como as fake news enganam o cérebro

(Fonte: Henryk Ditze/Shutterstock)

Os seres humanos gostam de pensar que são racionais, mas suas decisões são guiadas, na maioria das vezes, por pensamentos emocionais e irracionais, em um processo cognitivo conhecido como heurística. Essa estratégia do cérebro ignora parte das informações e utiliza experiências anteriores para tornar as decisões com mais facilidade e rapidez.

Dessa forma, as notícias falsas procuram acionar a memória emocional para desviar a atenção dos fatos e provocar na mente uma sensação de veracidade. Para tornar ainda mais difícil o trabalho de análise para distinguir informações falsas, as redes sociais misturam postagens pessoais, como cumprimentos de aniversários, com o compartilhamento de notícias que exigem uma atenção mais profunda.

Um experimento da Universidade Stanford descobriu que pessoas de todas as idades estão inclinadas a avaliar fontes com base em recursos como o design gráfico do site. O cérebro está treinado para confiar em aspectos visuais; o problema é que esses detalhes são facilmente manipuláveis. Fotos podem ser alteradas ou retiradas de seu contexto original e até vídeos podem ser modificados por meio de técnicas de inteligência artificial conhecidas como deep fake.

O perigo dos boatos para a saúde

As fake news podem colocar vidas em riscos e levar ao colapso do sistema de saúde com a disseminação de informações falsas, como a inexistência de casos de covid-19 e imagens de leitos vazios de hospitais para levar ao abandono do isolamento social.

Podem, também, fazer as pessoas acreditarem em tratamentos ineficazes, como misturar limão e bicarbonato para curar a covid-19. Ou, ainda, administrar medicamentos com cloroquina e hidroxicloroquina de forma inadequada, o que pode provocar danos colaterais perigosos para a saúde.

Como se imunizar contra a infodemia

Para se imunizar contra a infodemia é preciso priorizar a qualidade da informação em vez da quantidade. A OMS recomenda escolher uma hora do dia para se atualizar com notícias sobre o novo coronavírus em fontes confiáveis. E, ao compartilhar uma notícia, assegurar a veracidade dela.

Antes da pandemia da covid-19, o Ministério da Saúde lançou um serviço de verificação de fake news que pode ser acessado por WhatsApp. Além disso, iniciativas como o Projeto Comprova, uma coalizão de veículos e entidades da qual o Estadão Verifica faz parte, identificam informações duvidosas sobre o novo coronavírus com o monitoramento das redes sociais.

Fonte: The Guardian, The New York Times, Fórum Econômico Mundial, ONU, CNN, Ministério da Saúde, Estadão.