Como hospitais podem enfrentar a redução de demanda?

7 de junho de 2020 6 mins. de leitura
Entenda quais medidas gestores da área têm tomado para não demitir ou fechar as portas

A pandemia do novo coronavírus atingiu dados alarmantes: o número de mortos pela covid-19 no Brasil ultrapassa a marca de mil óbitos diários, valor que pode ser ainda maior diante da subnotificação. Em diversas regiões, os hospitais estão atendendo em capacidade máxima nas áreas de cuidado intensivo, a exemplo do Ceará, em que leitos têm sido abertos com urgência para dar conta do crescimento de casos que demandam o uso de aparelhos como respiradores.

A política de isolamento social, que auxilia o achatamento da curva de transmissão, gera uma consequência amarga de médio e longo prazos: diversos negócios correm o risco de não aguentarem semanas de interrupção ou de queda vertiginosa no fluxo de caixa. Ainda que soe paradoxal, hospitais privados e filantrópicos estão entre eles, sobretudo os pequenos e médios.

Desafio

Gestores hospitalares temem que a redução da demanda eletiva por período prolongado leve ao fechamento de instituições. (Fonte: Shutterstock)

No Brasil, a saúde é dividida em níveis de complexidade: primário, secundário e terciário, como classifica a Organização Mundial da Saúde (OMS). No nível primário ocorre a absorção das demandas médicas cotidianas, como consultas de rotina e queixas que não são emergenciais. Já o nível secundário tem capacidade maior de resolução, com especialidades e procedimentos intermediários, como unidades de pronto-atendimento e pequenas e médias cirurgias.

O nível de complexidade terciário tem estrutura para procedimentos mais específicos e sofisticados, como operações complexas, e ambulatórios de maior especialidade, para procedimentos mais refinados. Quando há serviços de referência nacional ou internacional, como transplante de órgãos, fala-se em nível quaternário. A maior parte dos leitos para tratamento intensivo com estrutura para acolher casos graves, a exemplo do que ocorre com os pacientes em estado severo de covid-19, concentra-se nessas instituições.

Segundo a Federação Brasileira de Hospitais (FBH), 70% dos centros hospitalares são de nível secundário e se concentram no atendimento a demandas eletivas ou de urgências de média complexidade. Isso significa que o cotidiano desses locais é tratar casos agendados, que não têm necessidade imediata de intervenção, como ocorre no nível terciário.

Em virtude da política de isolamento social, a maior parte das consultas e atividades eletivas (consultas oftalmológicas e cirurgias de correção miopia, por exemplo) é deixada pelos pacientes para outro momento, por isso hospitais de pequena e média complexidades já estão sentindo o impacto da redução das atividades e cogitam reduzir salários ou demitir funcionários.

As instituições de nível terciário, que costumam ter uma estrutura mais resistente a crises financeiras, também estão com problemas. Os leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) estão lotados, e são justamente os tratamentos considerados de alto custo. Além disso, a grande demanda de insumos próprios para esse tipo de cuidado faz com que os produtos sofram uma inflação significativa — máscaras descartáveis, por exemplo, subiram de R$ 0,30 para R$ 3,14 por unidade.

Diante desse cenário, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, é um exemplo do impacto sofrido no setor terciário: com 45% menos receita, cortou 25% dos salários e da jornada de trabalho de um terço dos seus 15 mil funcionários.

Saídas

Hospital Israelita Albert Einstein reduziu salários e jornadas dos trabalhadores. (Fonte: cifotart / Shutterstock)

Os gestores hospitalares têm procurado uma série de alternativas para esse período crítico. Uma delas é realmente a redução de salário e jornada, com a finalidade de não dispensar funcionários. Além do reconhecimento aos profissionais que estão na linha de frente contra a covid-19, deve-se considerar que a demanda dos hospitais tende a crescer novamente, já que as ações eletivas represadas devem ser apresentadas ao fim da fase de isolamento, dando novo fôlego ao setor.

Outra saída tem sido negociar entradas de caixa diretamente com as empresas de planos de saúde. A Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) propôs que as operadoras repassassem aos hospitais 85% do valor faturado nos períodos equivalentes do ano passado, durante um ciclo de três meses a quatro meses. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) disse que alternativas como essa devem ser articuladas diretamente com as companhias responsáveis.

Há também empresas especializadas em auxiliar na gestão de consultórios, clínicas e pequenos hospitais, com a possibilidade, inclusive, de adiantamento de entradas. Uma delas é a Medicinae Solutions, que oferece soluções que podem ser úteis nesse momento de redução de demanda. Mas o principal horizonte deve vir do governo federal.

No fim de abril, houve uma audiência pública no Congresso Federal com os principais agentes da área. Segundo a FBH, a sobrevivência dos hospitais é um fator de interesse nacional, uma vez que o setor é responsável por 66% dos atendimentos de média e grande complexidades do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de contratos que complementam a oferta pública de consultas, procedimentos e internações.

Em resposta às demandas do setor, o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) está estudando uma política de fomento a entidades privadas e filantrópicas. A ser divulgado nos próximos dias, o auxílio pode chegar a R$ 3 bilhões e tende a evitar demissões e fechamento de hospitais em todo o País.

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Fonte: Gov. Ceará, Medicinae Solutions, Estadão, Federação Brasileira de Hospitais.

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