Apixaban pode tratar trombose associada ao câncer

7 de junho de 2020 5 mins. de leitura
substância se mostrou duplamente vantajosa para o tratamento de trombose associada ao câncer, por ser via oral e não apresentar riscos de sangramentos

O tratamento com o medicamento apixaban pode ser tão eficaz quanto a terapia com Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) para a prevenção de tromboembolismo venoso (TEV) em pacientes com câncer. Essa é a conclusão de um estudo apresentado no Congresso Mundial de Cardiologia realizado pelo Colégio Americano de Cardiologia e publicado no The New England Journal of Medicine.

O TEV é uma complicação comum, e uma das principais causas de morbidade e mortalidade em pacientes com câncer, mas a condição pode ser evitada. Entretanto, o manejo de pacientes com neoplasia maligna é um desafio, porque os riscos de trombose recorrente e sangramento são maiores do que em indivíduos sem câncer.

Tratamento atualmente recomendado para evitar trombose venosa em pacientes com câncer é aplicado por meio de injeções subcutâneas. (Fonte: Shutterstock)

As diretrizes atuais recomendam injeções subcutâneas diárias com HBPM, como dalteparina, para a prevenção de TEV em pacientes com carcinoma. Para evitar o desconforto, as diretrizes incluem também anticoagulantes orais, como edoxaban e rivaroxaban, mas os medicamentos oferecem maiores riscos de sangramento.

Em busca de uma solução para as deficiências das duas terapias descritas, os pesquisadores resolveram verificar se o tratamento oral com apixaban apresentava riscos de hemorragias graves nos pacientes.

Grupo envolvido na pesquisa

O estudo do Comitê Diretor de Caravaggio da Universidade de Perúgia, na Itália, avaliou um total de 1.170 indivíduos com trombose venosa profunda (TVP) ou embolia pulmonar, que foram acompanhados em 119 centros médicos dos Estados Unidos, da Europa e de Israel. A idade média dos pacientes foi 67 anos, com a participação de 51% de homens e 49% de mulheres.

Os tipos de neoplasia analisados no estudo incluíram os cânceres confirmados, exceto carcinoma basocelular ou escamoso da pele, tumor cerebral primário, metástases intracerebrais conhecidas ou leucemia aguda. Pacientes menores de 18 anos, com expectativa de vida menor do que seis meses também foram excluídos da pesquisa.

Estudo comparativo entre apixaban e dalteparina

Cientistas italianos testaram a eficácia do anticoagulante aplicado oralmente. (Fonte: Raihana Asral / Shutterstock)

Um grupo de 576 pacientes foi tratado com apixaban enquanto 579 indivíduos foram medicados com dalteparina. Ambos os grupos receberam os medicamentos por um período de seis meses.

Nos primeiros sete dias, os pacientes do apixaban receberam 10 mg duas vezes ao dia e, depois, 5 mg duas vezes diárias. Nos pacientes da dalteparina, foi aplicada uma dose subcutânea de 200 UI por kg de peso corporal uma vez ao dia, durante o primeiro mês e, depois, uma dose de 150 UI por kg diariamente.

Os pesquisadores suspenderam os medicamentos no caso de uma contagem de plaquetas inferior a 50 mil por milímetro cúbico ou qualquer condição associada a um risco aumentado de sangramento. Além disso, o protocolo pode ter sido alterado para permitir ajustes na dose de dalteparina com base na rotulagem específica do país.

Resultados obtidos

No grupo apixaban, o TEV recorrente foi registrado em 32 dos 576 pacientes, ou seja, cerca de 5,6% do total. Enquanto isso, 46 dos 579 pacientes do grupo dalteparina apresentaram a mesma condição, isto é, 7,9% do total. A TVP recorrente foi registrada em 2,3% do grupo apixaban em comparação com 2,6% do grupo dalteparina.

A embolia pulmonar recorrente foi identificada em 3,3% dos pacientes do grupo apixaban ao mesmo tempo que o índice de ocorrência foi de 5,5% do grupo dalteparina. A embolia pulmonar fatal atingiu 0,7% dos pacientes tratados com apixaban, enquanto a mortalidade foi 0,5% do grupo dalteparina.

Hemorragias graves aconteceram em 3,8% dos pacientes no grupo do apixaban. Um percentual semelhante, de 4%, tiveram sangramentos no grupo de dalteparina. Os pesquisadores observaram que o sangramento gastrointestinal maior ocorreu em 1,9% do grupo apixaban e em 1,7% no grupo dalteparina. Outros tipos de hemorragia ocorreram em 1,9% do grupo apixaban e 2,2% do grupo dalteparina. Não ocorreram episódios hemorrágicos fatais no grupo apixaban, mas ocorreram em dois pacientes que receberam dalteparina.

No geral, a maior incidência cumulativa de TEV recorrente ou sangramento foi de 8,9% para apixaban e 11,4% para dalteparina. Os resultados indicaram a ocorrência de hemorragias menores clinicamente relevantes em 9% dos pacientes tratados com apixaban e 6% dos com dalteparina.

Conclusão do estudo

Os pesquisadores concluíram que o apixaban oral não era inferior à dalteparina subcutânea para o tratamento de TEV associado ao câncer. A pesquisa não observou o aumento no risco de sangramento grave, principalmente nos locais gastrointestinais. As descobertas ampliam a proporção de pacientes com trombose associada ao câncer que podem ser tratados com anticoagulantes orais diretos, incluindo pacientes com câncer gastrointestinal.

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Fonte: The New England Journal of Medicine, MD Magazine, Med Page Today, AJMC, Venous News, ACC, Clinical Trial Results, Nature, Hospital Sírio Libanês e Pebmed.

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