Ivermectina não age contra a covid-19, comprovam estudos

17 de maio de 2020 5 mins. de leitura
Autoridades sanitárias mundiais alertam que covid-19 segue sem tratamento específico

[Conteúdo alterado em 14/01/2021]

Esta matéria foi publicada originalmente em 17/05/2020. Estudos posteriores não comprovaram a eficácia da substância contra a covid-19.

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Em abril de 2020, a ivermectina mostrou ter ação antiviral contra a covid-19 em testes in vitro realizados na Universidade de Melbourne (Austrália), o que deu esperança para autoridades sanitárias em todo o mundo. Contudo, a realidade em laboratório é diferente da ação do organismo humano.

Os próprios cientistas australianos alertaram que novos testes seriam necessários para definir a dosagem segura para o tratamento contra o coronavírus. O artigo publicado chegou a ser retirado do ar, pois as informações não tinham sido revisadas por outros especialistas.

Pesquisa sobre ivermectina

Artigo que mostrava eficácia in vitro do tratamento foi retirado do ar por falta de revisão de pares. (Fonte: Shutterstock)
Artigo que mostrava eficácia in vitro do tratamento foi retirado do ar por falta de revisão de pares. (Fonte: Shutterstock)

Para que o remédio tivesse algum efeito em um paciente infectado pelo Sars-Cov-2, a dose necessária para combater o vírus seria 50 vezes maior do que a máxima diária permitida. A quantidade de ivermectina que em teoria seria eficaz contra a covid-19 poderia se tornar tóxica para seres humanos, provocando tontura, vertigem, tremor, febre, dores abdominais e de cabeça, coceira e queda brusca na pressão sanguínea.

Autoridades mundiais estão preocupadas com o uso de medicamentos sem eficácia e alertam que ainda não existe um remédio com comprovação científica para o tratamento das infecções causadas pela covid-19. O abuso de algumas substâncias, como cloroquina, pode provocar efeitos colaterais graves nos pacientes, por isso as vacinas continuam sendo a principal esperança para conter a doença.

Testes com ivermectina não avançaram

Para ter a certeza da eficácia de uma droga, uma série de etapas precisa ser obedecida. Estudos que indicaram alguma ação da ivermectina contra a covid-19 foram pré-clínicos, realizados em laboratório, e não puderam indicar o mecanismo de atuação do remédio contra o coronavírus.

Mesmo sendo uma das soluções mais testadas na procura de uma terapia para a covid-19, novos estudos continuam sem poder comprovar a eficácia da ivermectina, sendo a maioria publicações sem revisão ou estudos com vieses metodológicos que impedem uma conclusão.

A confirmação e a utilização de uma nova substância só acontecem após pelo menos três fases de testes, o que inclui ensaios clínicos randomizados com um grande número de pacientes.

Uso indiscriminado do remédio prejudica experimentos científicos. (Fonte: Shutterstock)
Uso indiscriminado do remédio prejudica experimentos científicos. (Fonte: Shutterstock)

Os experimentos com a ivermectina não avançaram cientificamente, apesar de receberem uma grande atenção de políticos e da imprensa. Isso, inclusive, é um dos fatores que têm dificultado a aplicação de maiores testes.

O uso fora dos estudos clínicos na América Latina tem dificultado a vida dos pesquisadores, como alerta um artigo publicado na Nature. A popularidade do medicamento e a falta de acompanhamento médico dos efeitos colaterais tornam impossível a continuidade das pesquisas. É cada vez mais difícil coletar as evidências das quais as agências reguladoras precisam para identificar o real papel desse medicamento.

Ineficácia da ivermectina no combate à covid-19

Um estudo realizado em Barcelona (Espanha) a partir de dados médicos retroativos apontou que não houve diferença significativa nos desfechos clínicos ou microbiológicos entre os grupos que tomaram o remédio e os que não o receberam, incluindo melhora clínica e taxas de hospitalização e alta hospitalar após oito dias.

Nesse experimento, a administração da droga ocorreu com a dose segura de 200 microgramas por quilo, uma quantidade menor que a necessária para ação contra o vírus in vitro. Por questões de segurança, doses muito elevadas do remédio ainda não têm seu perfil de segurança avaliado em ensaios clínicos.

Tratamento com ivermectina não é recomendado

Em junho de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) excluiu a ivermectina de seus esforços para encontrar um tratamento contra a covid-19. A Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e autoridades sanitárias da África do Sul e do México declararam publicamente que a ivermectina não é considerada um tratamento anticovid-19 devido à falta de dados científicos confiáveis.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se manifestou contra o uso da substância. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também reforçou que o remédio não tem eficácia comprovada contra o coronavírus e que seu uso não é recomendado.

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Fontes: Medical News Today, Monash University e Antiviral Research Magazine.

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